A Pedra de Roseta: a chave que abriu as portas do Antigo Egito

Quando pensamos no Antigo Egito, imaginamos faraós, pirâmides, templos monumentais e misteriosos hieróglifos gravados na pedra há milhares de anos. Durante séculos, porém, esses símbolos permaneceram indecifráveis. Os estudiosos conseguiam admirar os monumentos egípcios, mas eram incapazes de compreender o que estava escrito neles.

Tudo mudou graças a uma descoberta feita no final do século XVIII: a Pedra de Roseta. Considerada uma das mais importantes peças arqueológicas da História, esta estela tornou-se a chave que permitiu desvendar os segredos da escrita egípcia antiga e abrir uma nova era no estudo da civilização dos faraós.

O que é a Pedra de Roseta?

A Pedra de Roseta é uma estela de granodiorito escuro, datada de 196 a.C., durante o reinado de Ptolomeu V Epifânio. O monumento contém um decreto emitido por sacerdotes egípcios em honra do jovem faraó, celebrando as suas realizações e reafirmando a sua autoridade.

O aspeto mais extraordinário desta pedra é que o mesmo texto foi gravado em três sistemas de escrita diferentes:

• Hieróglifos egípcios, utilizados em monumentos e contextos religiosos;

• Escrita demótica, usada no quotidiano administrativo do Egito;

• Grego antigo, a língua da administração ptolemaica.

Foi precisamente esta característica que tornou a Pedra de Roseta tão valiosa para os estudiosos.

A descoberta em Roseta

A pedra foi descoberta em julho de 1799 durante a campanha militar de Napoleão Bonaparte no Egito. O achado ocorreu perto da cidade de Roseta (atualmente Rashid), localizada no Delta do Nilo.

O responsável pela descoberta foi o oficial francês Pierre-François-Xavier Bouchard, engenheiro do exército francês. Enquanto supervisionava trabalhos de reforço do Forte Julien, Bouchard reparou numa pedra negra coberta por inscrições antigas.

Rapidamente se percebeu que aquele objeto era especial. A presença de texto em grego permitiu aos estudiosos identificar que as três inscrições continham essencialmente o mesmo conteúdo.

Napoleão compreendeu imediatamente a importância da descoberta e ordenou que fossem produzidas cópias para serem enviadas aos principais centros académicos da Europa.

Como a pedra chegou a Londres

Apesar de ter sido descoberta pelos franceses, a Pedra de Roseta acabaria por não permanecer em França.

Após a derrota das forças napoleónicas no Egito, em 1801, os britânicos assumiram o controlo de diversos artefactos arqueológicos encontrados durante a campanha. Pelo Tratado de Capitulação de Alexandria, a Pedra de Roseta foi entregue aos britânicos e transportada para Inglaterra.

Em 1802, a peça foi oficialmente integrada nas coleções do Museu Britânico, onde permanece até aos dias de hoje. Atualmente, é uma das peças mais visitadas do museu e continua a atrair milhões de visitantes.

A sua presença em Londres continua, contudo, a gerar controvérsia. O Egito tem solicitado repetidamente a devolução da pedra, considerando-a parte fundamental do seu património cultural.

O mistério dos hieróglifos

Durante mais de 1.400 anos, ninguém conseguia ler os hieróglifos egípcios.

Após a expansão do Cristianismo e o desaparecimento gradual da antiga religião egípcia, o conhecimento da escrita hieroglífica perdeu-se. Muitos acreditavam até que os hieróglifos eram apenas símbolos místicos sem valor fonético.

A Pedra de Roseta veio alterar completamente esta visão.

Como o texto em grego podia ser lido, os estudiosos passaram a compará-lo com as versões em demótico e hieróglifos, tentando identificar correspondências entre os diferentes sistemas de escrita.

Champollion e a grande decifração

Vários investigadores contribuíram para o processo de decifração. Entre eles destacaram-se Thomas Young, no Reino Unido, e Jean-François Champollion, em França.

Foi Champollion quem alcançou o grande avanço.

Ao estudar os nomes reais inscritos dentro de cartuchos, especialmente os de Ptolomeu e Cleópatra, conseguiu perceber que os hieróglifos não eram apenas símbolos decorativos ou ideográficos. Muitos deles representavam sons.

Em 1822, Champollion anunciou oficialmente a decifração dos hieróglifos egípcios. Esse momento é considerado um dos maiores avanços da história da arqueologia e da linguística.

Segundo um relato tradicional, depois de concluir a sua descoberta, Champollion correu para comunicar o resultado ao irmão e terá desmaiado devido à emoção e ao esgotamento provocados por anos de investigação intensa.

Porque foi a Pedra de Roseta tão importante?

A importância da Pedra de Roseta vai muito além da sua beleza ou raridade.

Antes da sua decifração, o Egito antigo era conhecido sobretudo através dos relatos de autores gregos e romanos. Os próprios egípcios permaneciam praticamente sem voz.

Graças à leitura dos hieróglifos tornou-se possível estudar diretamente:

• Textos religiosos;

• Inscrições reais;

• Registos administrativos;

• Cartas e documentos oficiais;

• Literatura egípcia;

• Monumentos e túmulos.

Pela primeira vez, os historiadores puderam compreender como os antigos egípcios viam o mundo, organizavam a sociedade, praticavam a religião e registavam a sua própria história.

Por essa razão, muitos especialistas consideram a Pedra de Roseta a verdadeira chave para o conhecimento da civilização egípcia. Como refere um dos documentos históricos sobre o tema, a pedra forneceu a chave para compreender uma das grandes civilizações da Antiguidade.

Um legado que continua vivo

Mais de dois séculos após a sua descoberta, a Pedra de Roseta continua a ser um símbolo do conhecimento histórico e arqueológico.

Sem ela, grande parte da história do Antigo Egito permaneceria envolta em mistério. Os templos de Luxor e Karnak, os túmulos do Vale dos Reis e milhares de inscrições espalhadas ao longo do Nilo continuariam silenciosos.

A Pedra de Roseta não foi apenas uma descoberta arqueológica. Foi uma ponte entre o presente e um mundo desaparecido há milhares de anos. Graças a ela, foi possível devolver voz a uma das civilizações mais fascinantes da História e compreender melhor o legado que o Egito deixou à humanidade.

Referências Bibliográficas:

Allen, J. P. (2008). A Pedra de Roseta: A chave para o Egito Antigo. Martins Fontes.

British Museum. (s.d.). Rosetta Stone. https://www.britishmuseum.org

Champollion, J.-F. (1824/2022). Précis du système hiéroglyphique des anciens Égyptiens. Bibliothèque nationale de France.

Egipto Exclusivo. (2026). Onde está a Pedra de Roseta? Nós te contamos. https://www.egiptoexclusivo.com

Ortiz, A. (2011). O Egito dos faraós: Da antiga Mênfis à moderna Cairo: 5.000 anos de aventuras. Record.

Universidade Estadual de Campinas. (2022). A Pedra de Roseta: Bicentenário da decodificação dos hieróglifos egípcios. https://www.blogs.unicamp.br/linguistica/2022/10/11/a-pedra-de-roseta-bicentenario-da-decodificacao-dos-hieroglifos-egipcios/

Rosetta Stone: a granodiorite stele with a decree written in Ancient Egyptian hieroglyphs, in Demotic and in Ancient Greek – Autor: Tulumnes https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rosetta_Stone_with_Ancient_Egyptian_bilingual_text.jpg
Jean François Champollion – Leon Cogniet, Domínio Público

Fragment of a wall with hieroglyphs from the tomb of Seti I – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Hieroglyphs_from_the_tomb_of_Seti_I.jpg
Frontispício de Lettre M. Dacier… Relative a l’alphabet des hieroglyphes phonétiques de Jean-François Champollion (1822).
O nome de Cleópatra (Qliopatrat) na escrita hieróglifica.
As três formas de escrita encontradas na Pedra de Roseta. Da esquerda para direita: hieróglifos, demótico e grego.

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