Entre os objetos mais fascinantes da Antiguidade encontra-se um pequeno cilindro de argila coberto de escrita cuneiforme, conhecido como Cilindro de Ciro. Apesar das suas dimensões reduzidas, este artefacto tornou-se um dos documentos mais importantes do mundo antigo, não apenas pela ligação ao poderoso Império Persa, mas também pelo impacto que teve na história do povo judeu.
Hoje preservado no British Museum, o cilindro continua a despertar debates entre arqueólogos, historiadores e estudiosos da Bíblia. Para alguns, representa um símbolo antigo de tolerância religiosa; para outros, trata-se sobretudo de um texto político criado para glorificar o rei persa Ciro, o Grande. Independentemente dessas interpretações, existe um ponto praticamente consensual: o Cilindro de Ciro está intimamente ligado ao fim do Exílio Babilónico e ao renascimento do povo judeu em Jerusalém.
O que é o Cilindro de Ciro?
O Cilindro de Ciro é um cilindro de argila cozida com inscrições em escrita cuneiforme acadiana, produzido após a conquista da Babilónia pelos persas em 539 a.C. O texto foi escrito em nome de Ciro II, conhecido como Ciro, o Grande, fundador do Império Persa Aqueménida.
No cilindro, Ciro apresenta-se como um governante escolhido pelo deus babilónico Marduk para restaurar a ordem e devolver estabilidade à Babilónia após o reinado de Nabónido, o último rei neobabilónico. O texto descreve ainda a restauração de templos, o regresso de povos deportados às suas terras e a reconstrução de cidades destruídas.
Uma das passagens mais conhecidas afirma:
“Eu sou Ciro, rei do universo, o grande rei, o poderoso rei, rei da Babilónia, rei da Suméria e Acádia, rei das quatro partes do mundo.”
Outra passagem particularmente importante refere:
“Reconstruí os santuários que tinham sido dilapidados (…) reuni todos os seus povos e os fiz retornar às suas habitações.”
Estas palavras tornaram-se centrais na ligação entre o cilindro e o regresso dos judeus exilados na Babilónia.
Como foi descoberto?
O cilindro foi descoberto em março de 1879 pelo arqueólogo assírio-britânico Hormuzd Rassam, durante escavações organizadas pelo Museu Britânico nas ruínas da antiga Babilónia, no atual Iraque.
Segundo os relatos arqueológicos, o objeto encontrava-se enterrado nas fundações do templo de Esagila, o principal templo da Babilónia dedicado ao deus Marduk. A descoberta causou enorme entusiasmo no mundo académico, especialmente porque o texto parecia confirmar acontecimentos históricos mencionados no Antigo Testamento relacionados com o regresso dos judeus do exílio.
A queda da Babilónia
Para compreender a importância do cilindro, é necessário olhar para o contexto histórico da queda da Babilónia.
No século VI a.C., a Babilónia era uma das cidades mais poderosas e impressionantes do mundo antigo. No entanto, o reinado de Nabónido tornou-se cada vez mais polémico. Segundo várias fontes cuneiformes, o rei afastou-se do culto tradicional do deus Marduk e privilegiou o deus lunar Sîn, provocando descontentamento entre sacerdotes e parte da população.
A investigadora Maria de Fátima Rosa explica que Ciro aproveitou esse descontentamento religioso e político para se apresentar como libertador da Babilónia. O Cilindro de Ciro reflete precisamente essa narrativa: Marduk teria abandonado Nabónido e escolhido Ciro como novo governante legítimo.
O texto afirma ainda que Ciro entrou na Babilónia pacificamente e foi recebido com alegria pela população.
O debate: direitos humanos ou propaganda política?
Ao longo do século XX, especialmente durante o reinado do xá do Irão, o Cilindro de Ciro começou a ser apresentado como a “primeira declaração dos direitos humanos” da História. Esta interpretação tornou-se bastante popular e até as Nações Unidas exibiram uma réplica do cilindro.
De facto, o texto fala de tolerância religiosa, reconstrução de templos e retorno de povos deportados. Contudo, muitos historiadores modernos consideram esta interpretação anacrónica.
O historiador Ivan Esperança Rocha explica que o cilindro deve ser entendido como um documento de propaganda aqueménida destinado a legitimar e glorificar o governo de Ciro. O próprio texto segue fórmulas tradicionais utilizadas por outros reis da Mesopotâmia para justificar o seu poder.
A historiadora Amélie Kuhrt também defende que o cilindro pertence à tradição política mesopotâmica e não pode ser interpretado como uma carta moderna de direitos humanos.
Ainda assim, mesmo que o documento tivesse objetivos políticos, é evidente que as políticas de Ciro foram diferentes das praticadas por muitos conquistadores anteriores. Em vez de destruir identidades locais, o rei persa procurou integrar os diferentes povos do império, permitindo frequentemente a continuidade das suas tradições religiosas.
A importância do Cilindro de Ciro para o povo judeu
É precisamente aqui que o Cilindro de Ciro ganha uma importância extraordinária para a história judaica.
Em 586 a.C., Jerusalém foi conquistada por Nabucodonosor II. O Primeiro Templo foi destruído e muitos judeus foram deportados para a Babilónia. Este acontecimento ficou conhecido como o Exílio Babilónico e marcou profundamente a identidade do povo judeu.
Décadas depois, quando Ciro conquistou a Babilónia em 539 a.C., adotou uma política diferente da dos babilónios. Segundo o Livro de Esdras, o rei persa autorizou os judeus a regressarem a Jerusalém e a reconstruírem o Templo:
“Assim diz Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, o Deus do céu, me deu todos os reinos da terra e me encarregou de lhe construir uma casa em Jerusalém.”
Embora o Cilindro de Ciro não mencione diretamente os judeus nem Jerusalém, muitos historiadores entendem que o documento reflete precisamente esta política geral de repatriação dos povos deportados.
Na tradição judaica, Ciro tornou-se uma figura extremamente respeitada. O profeta Isaías chega mesmo a chamar-lhe “ungido do Senhor”, algo raro para um governante estrangeiro.
Para os judeus exilados, a decisão de Ciro representou muito mais do que uma mudança política. Significou a possibilidade de regressar à terra ancestral, reconstruir Jerusalém, restaurar o culto religioso e recuperar parte da identidade nacional perdida durante o exílio.
O historiador Mario Liverani lembra que a política de Ciro também tinha objetivos estratégicos e imperiais, especialmente no controlo das regiões próximas do Egito. Ainda assim, isso não diminui o impacto histórico que estas decisões tiveram para o povo judeu.
Um pequeno objeto com um enorme legado
Mais de 2500 anos depois, o Cilindro de Ciro continua a ser um dos objetos arqueológicos mais importantes da Antiguidade. Pequeno em tamanho, mas gigantesco em significado histórico, tornou-se símbolo da queda da Babilónia, do nascimento do Império Persa e do regresso do povo judeu após décadas de exílio.
Mesmo que o debate sobre os direitos humanos continue entre os historiadores, a relevância do cilindro para a história judaica permanece inquestionável. Para muitos judeus, Ciro não foi apenas um conquistador persa, mas o governante que permitiu o renascimento de Jerusalém e abriu um novo capítulo na história do povo de Israel.
Referências bibliográficas:
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Liverani, M. (2016). História, sociedade e economia. Editora da Universidade de São Paulo.
Pritchard, J. B. (1969). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament. Princeton University Press.
Rocha, I. E. (2020). O Cilindro de Ciro: usos e abusos do passado. Notandum, 23(54), 63–73.
Rosa, M. F. (2018). A queda da Babilónia em 539 a.C.: Nabónido e Ciro: duas atitudes divergentes face ao culto do deus Marduk.
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Bíblia Sagrada. Livro de Esdras 1:1-4; Isaías 45:1.







The Return to Jerusalem after the Captivity in Babylon

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