A História de Jerusalém, Parte 3: David e Salomão – quando Jerusalém se tornou a Cidade Santa de Israel

Depois da conquista da cidade pelos israelitas, Jerusalém preparava-se para viver um dos períodos mais marcantes da sua história. Sob os reinados de David e de Salomão, a pequena fortaleza jebuseia transformou-se no centro político, religioso e espiritual do povo de Israel. Foi nesta época que nasceram muitos dos símbolos que ainda hoje fazem de Jerusalém uma das cidades mais importantes do mundo.

Da ascensão de David ao trono

Depois da conquista de Canaã pelos israelitas e a sua difícil convivência com povos vizinhos, especialmente os filisteus, eis que surgiu uma das figuras mais emblemáticas da Bíblia: David.

Antes de se tornar rei, David era apenas um jovem pastor de Belém. Segundo o relato bíblico, foi escolhido pelo profeta Samuel para suceder ao rei Saul, embora ainda fosse desconhecido e improvável aos olhos da maioria.

A sua fama começou quando enfrentou o gigante Golias, guerreiro filisteu cuja derrota simbolizou muito mais do que uma simples vitória militar: representou a confiança de Israel em Deus perante um inimigo aparentemente invencível.

Apesar da popularidade crescente, David passou anos perseguido por Saul, vivendo como fugitivo antes de finalmente ascender ao trono.

A unificação das tribos de Israel

Após a morte de Saul, nem todas as tribos aceitaram imediatamente David como rei.

Primeiro foi reconhecido apenas pelas tribos do sul, tendo Hebron como capital. Só depois de vários anos de conflitos internos conseguiu unir também as tribos do norte, formando pela primeira vez um reino israelita verdadeiramente unificado.

Esta união seria decisiva para a história de Jerusalém.

A conquista de Jerusalém

Na época, Jerusalém ainda era uma cidade jebuseia, protegida por fortes muralhas e considerada praticamente inexpugnável.

David compreendeu que precisava de uma capital neutra, que não pertencesse a nenhuma tribo em particular. Jerusalém era o local ideal.

Segundo a tradição bíblica, a cidade foi conquistada através de um acesso subterrâneo relacionado com a fonte de Giom, embora os historiadores continuem a debater a forma exata como essa conquista ocorreu.

Depois da vitória, David deu-lhe um novo nome:

Cidade de David.

Foi aqui que estabeleceu a capital política do reino.

Jerusalém torna-se o centro religioso

David pretendia mais do que criar uma capital administrativa.

Mandou transportar para Jerusalém a Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do culto israelita, símbolo da presença de Deus entre o povo.

A chegada da Arca foi celebrada com grande entusiasmo. O relato bíblico descreve David dançando perante o povo enquanto acompanhava a procissão.

Com este gesto, Jerusalém passou a ser simultaneamente:

  • capital política;
  • centro religioso;
  • símbolo da unidade nacional.

Foi um momento decisivo na identidade do povo de Israel.

Um rei admirado… mas profundamente humano

Apesar da sua importância, David nunca foi apresentado pela Bíblia como um homem perfeito.

O episódio de Betsabé constitui um dos momentos mais conhecidos do Antigo Testamento.

Depois de se apaixonar por Betsabé, esposa do guerreiro Urias, David acabou por provocar a morte deste para poder casar com ela. O profeta Natã confrontou o rei, denunciando o abuso de poder e levando David ao arrependimento.

Este relato distingue David de muitos reis da Antiguidade: a própria Bíblia não esconde os seus erros, mostrando-o como um líder complexo, simultaneamente fiel, pecador, guerreiro e poeta.

A revolta de Absalão

Os últimos anos do reinado foram marcados por conflitos familiares.

Absalão, filho de David, ganhou grande popularidade e acabou por liderar uma revolta contra o próprio pai.

Embora David tenha recuperado o controlo do reino, Absalão morreu durante a batalha, deixando o rei profundamente abalado.

O célebre lamento de David permanece uma das passagens mais emocionantes da literatura bíblica:

“Meu filho Absalão! Quem me dera morrer eu em teu lugar!”

Este episódio revela o lado profundamente humano daquele que é considerado um dos maiores reis de Israel.

Salomão: o rei da sabedoria

Antes de morrer, David garantiu que o seu filho Salomão lhe sucederia no trono.

O novo rei iniciaria um período muito diferente.

Enquanto David ficou conhecido pelas guerras e pela expansão do reino, Salomão tornou-se famoso pela diplomacia, pelo comércio e pela administração.

Foi durante o seu reinado que Israel atingiu um dos momentos de maior prosperidade económica.

A construção do Primeiro Templo

O maior legado de Salomão foi a construção do Primeiro Templo de Jerusalém.

Erguido no Monte Moriá, o edifício tornou-se o centro absoluto do culto israelita.

Segundo a descrição bíblica, tratava-se de um complexo magnífico, revestido com madeiras nobres, ouro e bronze, incluindo:

  • o grande átrio;
  • o altar dos sacrifícios;
  • o chamado “Mar de Bronze”;
  • o Santo;
  • e o Santo dos Santos, onde foi colocada a Arca da Aliança.

A partir desse momento, Jerusalém passou a ser considerada a morada terrestre da presença divina.

Durante séculos, o Templo tornar-se-ia o principal local de peregrinação do povo judeu.

Entre a Bíblia e a Arqueologia

Grande parte do que conhecemos sobre David e Salomão provém dos relatos bíblicos.

A arqueologia confirma que Jerusalém conheceu um importante desenvolvimento durante esta época, embora continue a existir debate quanto à dimensão real do reino e ao esplendor descrito nos textos antigos.

Escavações na chamada Cidade de David revelaram fortificações, estruturas monumentais e vestígios que demonstram o crescimento da cidade durante a Idade do Ferro. No entanto, muitos aspetos permanecem objeto de investigação e discussão entre arqueólogos e historiadores.

O declínio de Salomão

Nos últimos anos da sua vida, Salomão afastou-se da imagem do rei ideal.

Os elevados impostos, os grandes projetos de construção e as tensões políticas provocaram descontentamento entre várias tribos.

Após a sua morte, o reino dividir-se-ia em dois:

  • Reino de Israel (a norte);
  • Reino de Judá (a sul), com Jerusalém como capital.

Esta divisão marcaria profundamente a história da cidade nos séculos seguintes.

Conclusão

O período de David e Salomão representa um dos capítulos mais importantes da história de Jerusalém.

Foi nesta época que uma pequena fortaleza jebuseia se transformou na capital de Israel, centro do poder político e coração espiritual do povo judeu.

A Cidade de David, a construção do Primeiro Templo e o estabelecimento de Jerusalém como local da presença divina moldaram uma herança que ultrapassou fronteiras e continua, milhares de anos depois, a influenciar três grandes religiões monoteístas.

Na próxima parte desta série, acompanharemos a divisão do reino, a destruição do Primeiro Templo pelos babilónios e o início do Exílio, acontecimentos que mudariam para sempre o destino de Jerusalém.

Referências Bibliográficas

  • Armstrong, K. (1997). Jerusalém: Uma Cidade, Três Religiões. Lisboa: Temas e Debates.
  • Mazar, A. (1992). Archaeology of the Land of the Bible. New York: Doubleday.
  • Montefiore, S. S. (2011). Jerusalém: A biografia (B. Vargas & G. Schlesinger, Trads.). Companhia das Letras.
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