Poucas figuras da Antiguidade continuam a despertar tanto fascínio como Cleópatra VII. O seu nome atravessou séculos, inspirou filmes, livros, pinturas e debates históricos. Muitas vezes lembrada apenas pela sua beleza ou pelos romances com Júlio César e Marco António, Cleópatra foi, acima de tudo, uma mulher extremamente inteligente, culta e estratega, que tentou salvar o Egito num dos momentos mais difíceis da sua história.
Cleópatra VII Filopátor nasceu em Alexandria em 69 a.C. e foi a última governante ativa do Reino Ptolemaico do Egito. Descendia da dinastia dos Ptolomeus, uma família de origem greco-macedónica ligada a Alexandre, o Grande. Apesar da sua origem grega, Cleópatra destacou-se dos restantes membros da dinastia por aprender a língua egípcia, algo raro entre os governantes ptolemaicos.
A cidade onde nasceu, Alexandria, era um dos maiores centros culturais do mundo antigo. A famosa Biblioteca de Alexandria reunia conhecimentos vindos de várias partes do Mediterrâneo, e Cleópatra cresceu num ambiente marcado pela filosofia, ciência, política e diplomacia. Desde jovem recebeu uma educação refinada e aprendeu diferentes idiomas. Plutarco afirmava que ela falava várias línguas e impressionava mais pela inteligência e pela conversa do que propriamente pela aparência física.
Quando o seu pai, Ptolemeu XII, morreu em 51 a.C., Cleópatra subiu ao trono juntamente com o irmão Ptolemeu XIII, seguindo a tradição egípcia dos casamentos entre irmãos da família real. Contudo, rapidamente surgiram conflitos entre ambos. O Egito vivia tempos difíceis, com crises económicas, fome e forte influência romana sobre a política egípcia.
A luta pelo poder levou Cleópatra ao exílio temporário. Porém, tudo mudou quando Júlio César chegou ao Egito em 48 a.C., perseguindo Pompeu durante a guerra civil romana. Cleópatra percebeu imediatamente a importância daquela oportunidade política. Segundo relatos antigos, conseguiu encontrar-se secretamente com César no palácio real de Alexandria, numa cena que ficou lendária na História.
A aliança entre ambos foi decisiva. César apoiou Cleópatra na guerra contra o irmão, que acabaria por morrer durante os confrontos. Depois disso, Cleópatra consolidou o seu poder e tornou-se novamente rainha do Egito. Da relação entre os dois nasceu Cesarião, apresentado por Cleópatra como filho de César.
Cleópatra chegou mesmo a viajar para Roma, onde permaneceu durante algum tempo como aliada de César. A sua presença causou admiração e também polémica entre os romanos. Muitos viam nela uma ameaça oriental ao poder romano, enquanto outros ficavam fascinados pela sua inteligência e influência.
Após o assassinato de Júlio César em 44 a.C., Cleópatra regressou ao Egito e voltou a enfrentar um cenário político instável. Poucos anos depois iniciou uma relação com Marco António, um dos homens mais poderosos de Roma. O encontro entre ambos em Tarso tornou-se célebre pela grandiosidade e pelo luxo apresentado pela rainha egípcia.
A relação entre Cleópatra e Marco António foi simultaneamente amorosa e política. Juntos tiveram filhos e tentaram construir uma nova ordem no Oriente. Marco António concedeu territórios a Cleópatra e aos filhos do casal nas chamadas “Doações de Alexandria”, algo que enfureceu Otávio, futuro imperador Augusto.
Otávio aproveitou a situação para lançar uma intensa campanha de propaganda contra Cleópatra. A rainha foi retratada como uma sedutora manipuladora que estaria a corromper Marco António e ameaçar Roma. Grande parte da imagem negativa de Cleópatra nasceu precisamente dessa propaganda romana e influenciou a forma como ela foi vista durante séculos.
Em 31 a.C., as forças de Otávio derrotaram Marco António e Cleópatra na famosa Batalha de Áccio. O destino do Egito estava praticamente decidido. No ano seguinte, Marco António suicidou-se e Cleópatra acabou por fazer o mesmo em Alexandria, em agosto de 30 a.C.
A tradição mais conhecida diz que Cleópatra morreu após ser mordida por uma cobra venenosa escondida numa cesta de frutas. No entanto, existem outras teorias históricas. Alguns investigadores defendem que ela utilizou venenos preparados por si própria, enquanto outros sugerem que Otávio poderá ter forçado ou facilitado o suicídio da rainha.
Com a morte de Cleópatra terminou o Reino Ptolemaico e o Egito passou a ser uma província romana. Foi também o fim do período helenístico iniciado por Alexandre, o Grande.
Ao longo dos séculos, Cleópatra tornou-se muito mais do que uma figura histórica. Transformou-se num símbolo de poder feminino, inteligência, sedução e resistência política. Como destaca a investigadora Ella Shohat, cada época criou a sua própria imagem de Cleópatra, refletindo ideias sobre género, poder, raça e identidade. Ainda hoje existem debates sobre a sua origem étnica e aparência física, mostrando como a figura da rainha continua viva no imaginário moderno.
Mas talvez o mais impressionante em Cleópatra seja perceber que, numa época dominada por homens e impérios militares, ela conseguiu governar, negociar, liderar exércitos, falar várias línguas e enfrentar Roma durante décadas. A sua história vai muito além do romance ou da lenda. Cleópatra foi uma mulher de enorme capacidade política que tentou preservar a independência do Egito num mundo em transformação.
E talvez seja precisamente por isso que, mais de dois mil anos depois, o nome de Cleópatra continua a despertar tanta curiosidade.
E vocês?
Se vivesse no século XXI, como imaginam que Cleópatra seria vista pela sociedade atual?
Acham que a História foi injusta com Cleópatra ao reduzir muitas vezes a sua imagem à sedução?
Acreditam que o poder feminino ainda hoje é retratado de forma diferente do masculino?
Cleópatra foi uma heroína, uma estratega política ou ambas?
Qual é a figura histórica feminina que mais vos fascina?
Referências bibliográficas
Grant, M. (1972). Cleopatra. Weidenfeld and Nicolson.
Mazzei, P. T. (2016). Rainha, amante audaciosa e sedutora: representações de Cleópatra nos portais educacionais da web. Universidade de Brasília.
Preston, D. (2009). Cleopatra and Antony: Power, Love, and Politics in the Ancient World. Walker & Company.
Shohat, E. (2004). Des-orientar Cleópatra: um tropo moderno da identidade. Cadernos Pagu, 23, 11-54.
Roller, D. W. (2010). Cleopatra: A Biography. Oxford University Press.







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