As Cartas de Amarna: mensagens antigas que revelam um mundo em transformação

As Cartas de Amarna são um conjunto de correspondência diplomática datada do século XIV a.C., mais concretamente entre cerca de 1350 e 1330 a.C., durante o reinado dos faraós Amenófis III e do seu filho, Akhenaton.

Estamos, portanto, no período do Egito do Império Novo, uma fase em que o Egito era uma grande potência internacional, com influência sobre vastas regiões do Médio Oriente, incluindo Canaã.

Estas cartas foram escritas em tabuínhas de argila, usando escrita cuneiforme e, curiosamente, numa língua que não era o egípcio, mas sim o acádico, que funcionava como língua diplomática da época. Ou seja, tal como hoje o inglês é usado internacionalmente, naquele tempo era o acádico que permitia a comunicação entre reinos

Onde foram encontradas e como chegaram até nós?

As cartas foram descobertas em 1887, quase por acaso, por uma mulher egípcia que escavava nas ruínas de Tell el-Amarna em busca de fertilizante para agricultura.

O que ela encontrou foram dezenas de tabuínhas antigas, mas sem perceber o seu verdadeiro valor, vendeu-as por pouco dinheiro. Muitas acabaram danificadas durante o transporte, partidas ou até dispersas por diferentes colecionadores.

Só mais tarde os arqueólogos perceberam a importância extraordinária daquele achado. Escavações posteriores confirmaram que aquelas tabuínhas pertenciam ao arquivo diplomático da cidade de Akhetaton, a capital criada por Akhenaton.

Hoje, estas cartas encontram-se espalhadas por vários museus, como o de Berlim, o Museu Britânico ou o Louvre, o que mostra também o percurso complexo que tiveram desde a sua descoberta até ao presente.

O contexto histórico: um império sob pressão

Para compreender verdadeiramente estas cartas, é importante perceber o momento histórico em que foram escritas.

O Egito, apesar de poderoso, começava a enfrentar dificuldades em manter o controlo sobre os seus territórios na Síria e Palestina. As regiões sob domínio egípcio eram governadas por reis locais e governadores vassalos, que dependiam da proteção do faraó.

Mas essa proteção nem sempre chegava.

As cartas mostram precisamente isso:
um império que ainda existe… mas que começa a revelar fragilidades.

Enquanto o faraó Akhenaton se dedicava sobretudo à sua reforma religiosa, centrada no culto ao deus Aton, muitos dos seus territórios estavam sob ameaça. Governadores locais escreviam constantemente a pedir ajuda, relatando ataques e invasões

O que dizem estas cartas?

Ao longo das cerca de 382 cartas conhecidas, encontramos dois grandes tipos de correspondência.

Por um lado, as cartas entre grandes reis, Egito, Babilónia, Assíria, Mitani ou Hititas, que revelam um mundo diplomático sofisticado. Falam de alianças, trocas de presentes e casamentos entre famílias reais. Estes governantes tratavam-se como iguais, usando uma linguagem de respeito e proximidade.

Por outro lado, temos as cartas dos governadores de cidades de Canaã. Aqui o tom muda completamente. Já não há igualdade, mas submissão.

Estes governadores escrevem ao faraó com urgência e preocupação. Descrevem ataques de inimigos, traições entre cidades vizinhas e pedem reforços militares. Muitas dessas cartas mostram cidades à beira do colapso.

É nestas mensagens que encontramos referências a grupos como os habiru, frequentemente associados a populações em movimento ou forças que desestabilizavam a região.

Porque são tão importantes para a História?

As Cartas de Amarna são consideradas um dos mais importantes arquivos do mundo antigo.

Não são relatos escritos muito tempo depois dos acontecimentos, são documentos do momento. São testemunhos diretos da realidade política, social e diplomática daquela época.

Através delas, conseguimos:

  • perceber como funcionava a diplomacia antiga
  • compreender o domínio egípcio fora do Egito
  • reconstruir o ambiente político de Canaã antes de grandes transformações históricas

Além disso, estas cartas ajudaram os historiadores a perceber que o mundo antigo já era altamente interligado. Não existia isolamento, mas sim redes de comunicação, alianças e conflitos.

Há algo de muito especial nestas cartas.

Foram escritas em momentos de urgência, talvez com esperança de resposta… talvez com medo. E ainda assim, atravessaram séculos, impérios, ruínas e esquecimentos.

Hoje, quando olhamos para elas, não vemos apenas História.
Vemos pessoas.

Alguém que escreveu.
Alguém que pediu ajuda.
Alguém que esperou.

E talvez seja isso que torna as Cartas de Amarna tão marcantes:
lembram-nos que, mesmo há milhares de anos, o mundo já era feito de relações, decisões e incertezas, tal como o nosso.

E no silêncio da argila… ainda conseguimos ouvir essas vozes. 🤍

Referências bibliográficas

Kaefer, J. A. (2018). As cartas de Tell el-Amarna: classificação. Revista Caminhando.

Carreira, J. N. (1998). Recensão de Le lettere di el-Amarna, de Mario Liverani. Revista Cadmo.

Scoville, P. (2023). As Cartas de Amarna. World History Encyclopedia.

Amarna Letter from Abdi-Tirshi
Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)
Asset number
352276001
Description
Clay cuneiform tablet; letter from Bayawa to the king (of Egypt); 17 lines; divided into 4 paragraphs; dividing wedges occur; complete.
https://www.amarnaproject.com/
https://www.amarnaproject.com/
https://www.amarnaproject.com/
Futurelearn
The Balance of Power: The Amarna Letters, Gift-Giving and Diplomatic Marriages
Does Biblical Archaeology Confirm Israel Conquering The Promised Land? – Dust Off The Bible
Holding a Clay Tablet with Cuneiform Script
Ancient Mesopotamia—Literacy, Now and Then | The Metropolitan Museum of Art

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