Capela dos Pestanas: um tesouro neogótico na Rua do Almada

No centro do Porto, na Rua do Almada, ergue-se um dos mais singulares exemplares da arquitetura religiosa neogótica da cidade: a Capela dos Pestanas, também designada Capela do Divino Coração de Jesus. Ligada ao antigo Palácio ou Palacete dos Pestanas, esta capela não é apenas um espaço de devoção, mas também um testemunho da ambição artística, do gosto estético e da afirmação social de uma família portuense no final do século XIX.

A capela situa-se no gaveto entre a Rua do Almada, a Rua Gonçalo Cristóvão e a Rua Alferes Malheiro, implantada de forma recuada em relação ao muro gradeado da antiga residência. O acesso faz-se por uma escadaria perpendicular à Rua do Almada.

Na sua conceção original, a ligação entre o palacete e a capela fazia-se através de uma passagem elevada, coberta, em ferro e vidro translúcido, apoiada sobre colunas de ferro fundido no jardim. Esse enquadramento mostra bem que a capela fazia parte de um conjunto residencial de grande aparato, pensado como expressão de prestígio familiar.

A iniciativa da construção pertenceu a José Joaquim Guimarães Pestana da Silva, também referido como Engenheiro José Joaquim Pestana, proprietário do palácio e figura de relevo no Porto oitocentista. Ele era um portuense, protetor das artes, publicista, e proprietário rural. Sabe-se ainda que detinha vários imóveis e propriedades, entre eles a Quinta de Sam Thiago, em Custóias, além de outros prédios marcantes na cidade. A família Pestana da Silva possuía recursos, influência e uma clara consciência do valor simbólico da arquitetura.

A construção da capela começou em 1878. O projeto foi aprovado a 12 de setembro de 1878, ano em que também foi lançada a primeira pedra. A obra prolongou-se até 1890, data em que o templo abriu ao culto. Esta capela terá sido inaugurada em março de 1888, enquanto a bênção litúrgica ocorreu em 1898. Estes dados mostram que a construção, decoração e plena conclusão funcional do espaço decorreram por fases, algo relativamente comum em obras desta dimensão e riqueza decorativa.

O autor do projeto foi José de Macedo Araújo Júnior, um dos nomes mais importantes da engenharia e da arquitetura portuense do último quartel do século XIX, ligado também a obras de grande relevo como o Palácio da Bolsa e parte da Alfândega do Porto. Há ainda a responsabilidade de Albano Cordeiro Cascão na direção da obra. Estamos, portanto, perante um projeto de autor, pensado com sofisticação e integrado numa linguagem arquitetónica revivalista muito clara.

Do ponto de vista arquitetónico, a capela é descrita como uma composição de nave única retangular com três tramos, cabeceira semicircular, torre quadrangular antecedendo a fachada principal, além de um torreão octogonal e de uma sacristia retangular adossados ao lado ocidental. A fachada principal, orientada a sul, é dominada pela torre, cuja base aberta forma um alpendre com três arcos quebrados de acesso ao templo. Sobre esse nível surgem uma rosácea de interior quadrilobado, um relógio circular e as aberturas em arco apontado do campanário. O remate é feito com empenas e pináculos, reforçando a verticalidade típica do gosto neogótico.

Trata de um raro exemplar neogótico no Porto e até de uma das mais originais realizações neogóticas do país. Não é apenas uma capela bonita: é uma obra coerente, em que arquitetura, decoração, mobiliário e peças litúrgicas formam um conjunto pensado em unidade.

A fachada é enriquecida por duas esculturas em granito de São José e São Joaquim, colocadas em baldaquinos laterais. Estas esculturas são atribuídas a António Soares dos Reis, um dos maiores nomes da escultura portuguesa.

No interior, a riqueza decorativa é particularmente impressionante. O espaço é coberto por abóbadas de nervuras cruzadas em diagonal, com fechos de decoração vegetalista. Os arcos apoiam-se em colunas esguias com capitéis diferenciados, também vegetalistas. As paredes e os tetos foram estucados e pintados, num programa decorativo inspirado na Sainte-Chapelle de Paris.

O interior foi revestido com pinturas a cor, imitando tapeçarias, realizadas por Armando Marques Pinto ou Armando Pinto. Este detalhe é importante porque mostra que a capela não se limita a citar o gótico nas formas estruturais: procura também recriar a atmosfera visual e espiritual do gótico francês através da cor, da luz e da ornamentação.

Outro dos aspetos fundamentais é a proveniência internacional de muitos dos seus elementos artísticos. Grande parte do mobiliário litúrgico e de algumas obras de devoção foi realizada na cidade belga de Liège, na Casa Wilmotte. O altar-mor em bronze destaca-se como a peça por excelência do templo, decorado com sete nichos e imagens em baixo-relevo sobre fundo esmaltado e policromado. Os autores do retábulo-mor receberam, em 1885, a medalha de ouro na Exposição Internacional de Antuérpia, o que confirma a excecional qualidade do conjunto. Também os vitrais, bronzes e esmaltes são referidos como provenientes da Bélgica, nomeadamente de Gent.

Na capela-mor, sobre o altar, encontram-se as imagens do Sagrado Coração de Jesus, de Pio X e de Santo Inácio. Surge também a referência a imagens neogóticas de Nossa Senhora e de São José, a uma grade em bronze que separa a nave da capela-mor e a um coro de madeira com guarda vazada de arcos quebrados. Tudo isto reforça a ideia de que a capela foi concebida como um espaço total, onde o detalhe artístico era parte essencial da experiência religiosa.

A história da família Pestana cruza-se, assim, com uma determinada visão de arte e de estatuto. José Joaquim Guimarães Pestana da Silva não construiu apenas um oratório privado. Mandou erguer um edifício que traduzia devoção, cultura visual, cosmopolitismo e capacidade financeira.

Ao longo do século XX, o conjunto sofreu profundas transformações. O antigo Palacete dos Pestanas foi em grande parte destruído, com construção posterior sobre o antigo jardim e redução drástica dos limites da propriedade.

Em 1928, palacete e capela já pertenciam a Sebastião dos Santos Pereira Vasconcelos. Na década de 1950, o Plano Diretor do Porto chegou a prever a demolição do palacete devido ao alargamento da Rua Gonçalo Cristóvão, embora tal não se tenha concretizado.

Entre 1974 e 1975, o palacete foi sede do Centro Democrático Social e, depois, ocupado por vinte famílias. O documento regista ainda o assalto à capela em 11 de março de 1975 e um novo assalto em 1977, já por ocupantes do palacete, bem como um incêndio e posteriores obras de restauro.

Apesar dessas vicissitudes, a capela sobreviveu e tornou-se, em certo sentido, o elemento mais íntegro de todo o conjunto. Foi classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 2/96, publicado em Diário da República a 6 de março de 1996.

Apesar de vandalizada, a capela foi o elemento arquitetónico do conjunto do Palacete dos Pestanas que melhor conservou a sua tipologia original e a sua caracterização arquitetónica. Essa classificação oficial reconheceu o que a história da arte já permitia perceber: estamos perante uma peça singular do património religioso português.

Num Porto em constante transformação, esta capela permanece como um fragmento de outro tempo. Um tempo em que a arquitetura contava histórias, em que as famílias deixavam marcas duradouras na cidade e em que a beleza era construída com intenção.

Talvez seja isso que mais marca quem passa por ali: a sensação de estar diante de algo que resiste, não apenas em pedra, mas em memória.

Referências Bibliogáficas

Direção-Geral do Património Cultural. (s.d.). Capela dos Pestanas (Capela do Divino Coração de Jesus). Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA).

Pereira, F. (1914). O Porto d’outros tempos: Notas históricas, memórias, recordações. Livraria Chardron, de Lello & Irmão.

CAF Portugal (Facebook)

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