Há temas sobre os quais parece já estar tudo decidido antes de se ouvirem as pessoas envolvidas. As imagens circulam, os títulos sucedem-se, as opiniões tornam-se certezas e, muitas vezes, deixamos de perguntar o que aconteceu antes e depois daquele instante que chegou ao nosso ecrã.
É por isso que quero deixar aqui um convite: reservar algum tempo para conhecer Naza: A História Real, um documentário que apresenta a perspetiva de comandantes e oficiais israelitas sobre a guerra em Gaza. Está disponível gratuitamente no site oficial e tem cerca de 49 minutos (Naza: A História Real, s.d.-a).
O convite é simples: ouvir, observar e pensar. Procurar a verdade exige disponibilidade para conhecer testemunhos que podem não coincidir com aquilo que ouvimos todos os dias. Exige também a coragem de fazer perguntas, mesmo quando as respostas incomodam.
Ver o documentário Naza: A História Real
De que documentário estamos a falar?
Importa começar por uma distinção, porque os nomes podem causar confusão. Naza: A História Real, também apresentado como Naza: The Real Story, é uma obra diferente de NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor. Surge como resposta às acusações e à interpretação da condução da guerra apresentadas nesse outro filme. A agência ANSA noticiou esta relação entre as duas produções em outubro de 2026 (ANSA, 2026).
A obra aqui divulgada foi criada por Roi Danino, Ariel Averbuch e Hagay Gutman. A apresentação oficial identifica Danino como tenente-coronel da reserva e Averbuch como major da reserva, além das suas atividades civis; Gutman trabalha na realização e edição audiovisual. Estes percursos ajudam a compreender a perspetiva a partir da qual o projeto foi construído (Naza: A História Real, s.d.-b).
Conhecer quem fala faz parte de uma leitura séria de qualquer documentário. A experiência de alguém pode dar-nos acesso a uma realidade que desconhecemos, mas também delimita aquilo que essa pessoa viu, viveu e consegue explicar. É com essa atenção que vale a pena acompanhar estes testemunhos.
O que ouvimos nos testemunhos
Nas legendas em português disponibilizadas pelo site, os intervenientes descrevem encontros com combatentes do Hamas em roupa civil, armas encontradas em habitações e acessos a túneis em espaços domésticos. Um dos relatos refere uma carga antitanque debaixo de uma cama de criança e munições perto de um berço. São episódios apresentados pelos militares entrevistados, cuja verificação individual exige mais do que o respetivo relato (Naza: A História Real, 2026).
O filme procura colocar o espectador perante o problema de distinguir uma ameaça de uma pessoa que não participa nos combates. Os entrevistados descrevem ainda procedimentos de autorização de ataques, intervenção de assessores jurídicos e situações em que afirmam ter suspendido o fogo perante a presença de civis. Os reféns surgem também como fator que, segundo os relatos, condicionava decisões operacionais (Naza: A História Real, 2026).
São questões que merecem atenção. Quando observamos uma rua, uma casa ou uma escola numa imagem isolada, estamos a ver um lugar. Compreender o que aconteceu nesse lugar exige informação sobre o seu uso, as pessoas que ali estavam e as decisões tomadas em cada momento.
Isso torna especialmente importante conhecer a origem das imagens, a sua data e o contexto em que foram captadas. Um testemunho pode abrir uma pergunta decisiva. Uma imagem pode ajudar a respondê-la. Para chegar a uma conclusão, é necessário perceber até onde cada elemento nos permite ir.
Uma perspetiva que merece ser ouvida
Na sua página de perguntas e respostas, os responsáveis assumem que apresentam o ponto de vista dos oficiais israelitas. Explicam também que alguns entrevistados são filmados de costas para proteger a identidade, sendo identificadas as funções que exerciam. Segundo os autores, os depoimentos são acompanhados por fotografias, gravações e documentos destinados a sustentar o que é afirmado (Naza: A História Real, s.d.-c).
Para mim, esta é uma razão para conhecer o filme e examinar os elementos que apresenta. Ouvir quem esteve no terreno permite formular perguntas mais concretas: o que viu esta pessoa? De que operação fala? Que responsabilidade tinha? Que material acompanha a sua explicação? O que pode ser confirmado por outras fontes?
Gostaria que estas perguntas fossem feitas com a mesma exigência a todas as obras sobre esta guerra. A credibilidade de uma produção deve ser avaliada pelo trabalho que apresenta, pela qualidade das fontes e pela relação entre as suas afirmações e as provas disponíveis.
Também por isso, uma convicção forte merece ser acompanhada por disponibilidade para escutar. Se temos uma opinião sobre este conflito, conhecer estes testemunhos pode ajudar a aprofundá-la, a torná-la mais precisa ou a reconhecer perguntas para as quais ainda não temos resposta.

O 7 de outubro faz parte desta história
Falar desta fase da guerra exige recordar os ataques de 7 de outubro de 2023 e as pessoas que foram mortas, feridas ou levadas como reféns. Uma comissão internacional independente das Nações Unidas concluiu, em 2024, que o Hamas e outros grupos armados palestinianos cometeram crimes de guerra, incluindo ataques deliberados contra civis e tomada de reféns. A mesma investigação apresentou conclusões graves sobre a atuação das autoridades israelitas em Gaza (Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights [OHCHR], 2024).
Recordar as vítimas de 7 de outubro deve fazer parte de qualquer reflexão que queira compreender a experiência israelita desta guerra. Os seus nomes, famílias e vidas merecem espaço na memória pública. A sua humanidade não pode desaparecer quando muda o assunto do noticiário.
Da mesma forma, o sofrimento dos civis palestinianos exige atenção e respeito. Uma criança não escolhe onde nasce, quem controla o território em que vive ou que decisões militares são tomadas à sua volta. Defender a dignidade humana implica reconhecer essa vulnerabilidade em todas as pessoas.
É precisamente por levarmos as vítimas a sério que precisamos de compreender as responsabilidades concretas. Generalizações sobre povos inteiros afastam-nos dessa tarefa. Quem ordenou, quem executou, quem colocou pessoas em perigo e quem tinha o dever de as proteger são perguntas que exigem respostas sustentadas.
A proteção dos civis tem de estar no centro
Os temas levantados pelo documentário têm uma dimensão que ultrapassa a discussão sobre cinema. O Comité Internacional da Cruz Vermelha recorda que a condução das hostilidades está sujeita a regras de proteção dos civis, incluindo a distinção entre civis e combatentes, a proporcionalidade e as precauções nos ataques. A tomada de reféns e o uso de escudos humanos são proibidos (International Committee of the Red Cross [ICRC], s.d.).
Estas regras ajudam a perceber por que razão as alegações sobre o uso militar de espaços civis merecem investigação. A presença de combatentes não transforma automaticamente toda a população de uma zona num alvo legítimo. As violações de uma parte também não eliminam as obrigações da outra.
Por isso, os relatos sobre cuidados na autorização de ataques merecem ser examinados, tal como os episódios em que se suspeita de incumprimento dessas regras. A existência de procedimentos não demonstra, por si só, que foram respeitados em todas as operações. Essa avaliação depende dos factos de cada caso.
Esta exigência dá força à procura da verdade. Permite levar a sério o que é apresentado e, simultaneamente, manter as perguntas que qualquer investigação responsável deve colocar.
Ver para formar uma opinião mais informada
O meu convite é que se veja Naza: A História Real com tempo e atenção. Que se acompanhem as explicações até ao fim e se observem os elementos apresentados. Que se façam pausas quando alguma afirmação exigir uma pesquisa adicional. E que se evite reduzir uma obra inteira a um excerto escolhido por outra pessoa.
Vivemos rodeados de conteúdos que pedem uma reação imediata. Partilhar demora segundos; compreender demora mais. Um documentário pode oferecer esse tempo de atenção, desde que estejamos dispostos a usá-lo.
Quem procura a verdade precisa de conhecer as fontes, confrontar versões e distinguir aquilo que está demonstrado daquilo que continua em discussão. Essa atitude permite-nos reconhecer o valor de um testemunho sem lhe atribuir um alcance que não tem, e examinar uma acusação sem a transformar antecipadamente numa sentença.
É nesse espírito que partilho esta obra no Espaço de Maria. Considero importante dar a conhecer a perspetiva dos militares israelitas que nela participam e incentivar os leitores a examinar aquilo que apresentam. O debate público ganha quando mais pessoas consultam diretamente os materiais sobre os quais formam opinião.
Reserve cerca de 49 minutos. Ouça os testemunhos, observe o material apresentado e procure saber mais. A verdade merece esse tempo e essa atenção.
Clique aqui para ver Naza: A História Real, no site oficial
O acesso é gratuito e não exige conta. Segundo as indicações atuais do site, estão disponíveis legendas em português; podem ser ativadas no botão CC, escolhendo o idioma no leitor (Naza: A História Real, s.d.-c).
Referências bibliográficas
ANSA. (2026, 3 de outubro). Arriva da Israele “il contro documentario” in risposta a Naza. https://www.ansa.it/sito/notizie/cultura/cinema/2026/10/03/arriva-da-israele-il-contro-documentario-in-risposta-a-naza_e92ee824-ac82-44b7-8156-1f1d379bd127.html
International Committee of the Red Cross. (s.d.). Conduct of hostilities and protection of civilians. https://www.icrc.org/en/law-and-policy/conduct-hostilities-and-protection-civilians
Naza: A História Real. (2026). Naza: A História Real [Legendas em português de documentário]. https://nazadocumentary.com/captions/naza-pt.vtt
Naza: A História Real. (s.d.-a). O filme. Consultado em 18 de outubro de 2026, em https://nazadocumentary.com/pt/film
Naza: A História Real. (s.d.-b). Conheça os criadores. https://nazadocumentary.com/pt/about
Naza: A História Real. (s.d.-c). Perguntas e respostas. Consultado em 18 de outubro de 2026, em https://nazadocumentary.com/pt/faq
Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights. (2024, 12 de junho). Israeli authorities, Palestinian armed groups are responsible for war crimes, other grave violations of international law, UN inquiry finds. https://www.ohchr.org/en/press-releases/2024/06/israeli-authorities-palestinian-armed-groups-are-responsible-war-crimes
