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Atualidade · Filmes · História · Israel

Fauda: quando a realidade ultrapassa a ficção

Há séries que nos deixam sem fôlego. Fauda é uma delas. Mas, ao conhecer a história de Mira Shoshani e da sua filha Ofir, voltei a pensar numa frase que tantas vezes dizemos sem medir o seu peso: a realidade ultrapassa a ficção.

A quinta temporada de Fauda dedica dois episódios ao dia 7 de outubro de 2023. Os seus criadores reconheceram a dificuldade de transformar aquela manhã numa história para televisão. É compreensível: por mais intensa que seja uma cena, os atores podem sair dela quando a gravação termina. As pessoas que viveram aquele dia não tiveram essa possibilidade.

Mira Shoshani era uma alta responsável do Shin Bet, o serviço de segurança interna de Israel. Vivia com a família em Kfar Aza, uma das comunidades atacadas pelo Hamas. A sua filha Ofir, de 22 anos, estava noutro alojamento do kibutz quando foi atingida. O pai tentou chegar até ela e também ficou ferido. Mira permaneceu em contacto com a filha, procurando ajudá-la à distância. Às 11h46, recebeu uma mensagem que nenhuma mãe deveria receber: “Mãe, amo-te.” Ofir foi assassinada.

É difícil ler esta história sem pensar em Fauda: o perigo, as chamadas, a tentativa desesperada de resgate. Mas Ofir não era uma personagem. Mira não interpretava o papel de uma mãe. Quando falou da filha, disse que sentia ter falhado na missão da sua vida. É a dor de alguém que passou a carreira a trabalhar na segurança de outras pessoas e não conseguiu salvar a sua menina.

Quase três anos depois, discute-se a divulgação pública de um filme de 47 minutos, composto por gravações reais dos ataques de 7 de outubro. Até agora, foi mostrado sobretudo em sessões reservadas. A sua publicação continua a ser uma possibilidade em discussão, e compreendo que envolva uma decisão difícil para as famílias das vítimas. Ninguém deveria ter de expor os últimos momentos de alguém que ama para que o seu sofrimento seja levado a sério.

O que mais me inquieta é isto: depois de tantos testemunhos, ainda parece necessário recordar que, antes das análises e dos argumentos políticos, havia pessoas a viver uma manhã comum. Pais, filhos, amigos. Pessoas com planos para o dia seguinte.

É legítimo discutir a guerra e o sofrimento dos civis em Gaza. Também é indispensável reconhecer, sem desculpas nem apagamentos, o que aconteceu às vítimas de 7 de outubro. Uma dor não exige que se esqueça a outra.

Gosto de Fauda como série. Mas gostava que o mundo não precisasse da ficção para escutar quem sobreviveu. A história de Mira e Ofir lembra-me porquê: a realidade ultrapassou a ficção, e as pessoas reais merecem ser lembradas pelos seus nomes.

 Oren Rozen, memorial em Kfar Aza, licença CC BY-SA 4.0; Nizzan Cohen,

Bibliografia:

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