Jerusalém entrou na era helenística como uma pequena cidade organizada em torno do Templo. Ao longo de quase três séculos, porém, seria disputada por impérios, atravessada por novas ideias, perseguida por um rei selêucida e transformada pela revolta que esteve na origem de Hanukkah e do reino asmoneu.
Na parte anterior acompanhámos o regresso de alguns exilados da Babilónia, a reconstrução do Templo e das muralhas e a reorganização da comunidade judaica sob domínio persa. Agora, Jerusalém entra num mundo muito diferente: o mundo de Alexandre, o Grande, e dos reinos que nasceram depois da sua morte.
Foi um tempo de contrastes. A língua e a cultura gregas abriram novas possibilidades de comunicação, comércio e conhecimento, mas também criaram tensões profundas dentro da sociedade judaica. Em Jerusalém, a questão deixou de ser apenas quem governava a cidade. Passou também a ser como viver num mundo grego sem perder a identidade, a fé e a ligação à Torá.
Alexandre, o Grande, e o início de uma nova era
Em 332 a.C., Alexandre conquistou a região depois de derrotar o Império Persa. A tradição conservada por Flávio Josefo conta que o conquistador terá sido recebido solenemente pelo sumo sacerdote à entrada de Jerusalém e que mostrou respeito pelo Deus de Israel. É uma narrativa bonita e muito conhecida, mas foi escrita séculos mais tarde e não é confirmada por fontes contemporâneas. Por isso, deve ser lida com prudência.
O que sabemos com segurança é que a conquista de Alexandre alterou profundamente o Mediterrâneo oriental. O grego tornou-se a grande língua comum de administração e cultura, novas cidades foram fundadas e pessoas, mercadorias e ideias passaram a circular com uma intensidade sem precedentes. Jerusalém não deixou de ser judaica, mas passou a fazer parte de um espaço cultural helenístico muito mais vasto.

Alexandre morreu na Babilónia em 323 a.C., com apenas 32 anos. Como não deixou uma sucessão estável, os seus generais dividiram e disputaram o império. Jerusalém ficou numa zona estratégica, entre o Egito dos Ptolomeus e o vasto reino asiático dos Selêucidas. Durante décadas, a cidade mudou de mãos e viveu sob a influência alternada dessas duas dinastias.
Sob os Ptolomeus: Jerusalém entre a Judeia e Alexandria
No início do século III a.C., a Judeia ficou integrada no reino ptolomaico do Egito. Jerusalém manteve alguma autonomia religiosa e local, governada em grande medida pelo sumo sacerdote e pela elite ligada ao Templo, desde que os tributos fossem pagos. O Templo era o centro espiritual da cidade, mas também uma instituição económica e política de enorme importância.
Ao mesmo tempo, crescia no Egito uma comunidade judaica de língua grega, sobretudo em Alexandria. Foi nesse ambiente que a Torá começou a ser traduzida para grego, dando origem à Septuaginta. A tradição atribui a tradução a setenta ou setenta e dois sábios reunidos por ordem de Ptolomeu II, mas a formação da Septuaginta foi provavelmente um processo mais longo. Ainda assim, o seu impacto foi imenso: os textos bíblicos podiam agora ser lidos por judeus que já não dominavam o hebraico e, mais tarde, tornar-se-iam fundamentais para a expansão do cristianismo.

A helenização não significou o desaparecimento do judaísmo. Muitos judeus adotaram a língua grega, nomes gregos, hábitos urbanos e formas de educação helenísticas sem deixarem de se considerar judeus. O problema surgiu quando a aproximação cultural se transformou numa luta pelo poder dentro de Jerusalém e quando os reis estrangeiros começaram a intervir diretamente no sumo sacerdócio.
Dos Ptolomeus aos Selêucidas
Por volta de 200 a.C., Antíoco III derrotou os Ptolomeus e colocou a Judeia sob domínio selêucida. De início, a mudança pareceu favorável. O rei confirmou o direito dos judeus a viverem segundo as suas leis, apoiou o Templo e concedeu benefícios à cidade. Jerusalém continuava a ser uma teocracia centrada no Templo, mas a cultura grega estava cada vez mais presente entre as elites.
Na primeira metade do século II a.C., as divisões internas agravaram-se. Jasão comprou ao rei o cargo de sumo sacerdote e procurou transformar Jerusalém numa cidade de modelo grego, com ginásio e instituições próprias de uma pólis. Depois, Menelau ofereceu ainda mais dinheiro, tomou o cargo e agravou a crise. O sumo sacerdócio, que devia representar a continuidade religiosa, passou a ser disputado como instrumento de poder político e financeiro.
Antíoco IV e a rutura
Quando Antíoco IV Epifânio subiu ao trono selêucida, em 175 a.C., encontrou uma Jerusalém profundamente dividida. As suas campanhas no Egito, as necessidades financeiras do reino e as lutas entre fações judaicas contribuíram para uma escalada de violência. Em 169/168 a.C., o rei entrou em Jerusalém, saqueou o Templo e retirou objetos sagrados. Pouco depois, uma nova intervenção militar trouxe morte, destruição e a instalação de uma guarnição na fortaleza conhecida como Acra.
Em 167 a.C., práticas essenciais do judaísmo foram proibidas: a observância do Shabbat, a circuncisão e a leitura da Torá. O Templo foi dedicado a Zeus Olímpico e os sacrifícios judaicos foram interrompidos. As fontes antigas descrevem perseguições, execuções e atos de profanação. Os historiadores continuam a discutir até que ponto estas medidas resultaram de um programa religioso do rei, de uma tentativa de controlar uma província rebelde ou da colaboração de grupos locais helenizados. Seja qual for a combinação de motivos, para muitos judeus tratou-se de um ataque intolerável à Aliança e à própria identidade do povo.

Matatias e Judas Macabeu: a revolta começa
A resistência começou em Modiin, a noroeste de Jerusalém. Segundo o Primeiro Livro dos Macabeus, o sacerdote Matatias recusou-se a oferecer um sacrifício pagão, matou o representante do rei e fugiu para as montanhas com os seus cinco filhos. Depois da sua morte, a liderança passou para Judas, que ficou conhecido como Macabeu, provavelmente «o Martelo».
Judas conduziu uma guerra de guerrilha contra forças muito superiores e conseguiu várias vitórias. A revolta não foi apenas uma luta entre judeus e estrangeiros. Foi também uma guerra civil entre diferentes visões do judaísmo: de um lado, os que viam a helenização imposta e o controlo selêucida como uma ameaça mortal; do outro, judeus que defendiam ou aceitavam reformas helenísticas e alianças com o poder real.

A rededicação do Templo e a origem de Hanukkah
Em 164 a.C., Judas entrou em Jerusalém, purificou o Templo e restaurou o culto judaico. A rededicação foi celebrada durante oito dias e está na origem de Hanukkah, palavra hebraica que significa «dedicação» ou «consagração». A festa recorda a recuperação do Templo e a sobrevivência da identidade judaica num momento de perseguição.
É importante distinguir as várias camadas da tradição. Os livros dos Macabeus falam da rededicação do Templo e dos oito dias de celebração, mas não mencionam o conhecido milagre do pequeno recipiente de azeite que teria ardido durante oito dias. Essa narrativa aparece séculos mais tarde no Talmude. Isto não retira valor à tradição religiosa; ajuda-nos apenas a perceber como a memória de Hanukkah se foi enriquecendo ao longo do tempo.
A recuperação do Templo não terminou imediatamente a guerra. A fortaleza da Acra permaneceu nas mãos dos adversários e Judas morreu em combate, em 160 a.C. Os seus irmãos Jónatas e Simão continuaram a luta, recorrendo tanto às armas como à diplomacia. Finalmente, Simão conquistou a Acra em 141 a.C. e foi reconhecido como sumo sacerdote, comandante e dirigente hereditário. Depois de séculos sob impérios estrangeiros, a Judeia recuperava a independência.
O reino asmoneu: da liberdade à ambição
A família dos Macabeus deu origem à dinastia asmoneia. Com João Hircano, filho de Simão, o pequeno Estado judaico transformou-se numa potência regional. O território expandiu-se pela Idumeia, Samaria, Galileia e regiões além do Jordão. Jerusalém cresceu, as muralhas foram reforçadas e o Templo voltou a ocupar o centro de um reino independente.

Mas o poder também transformou os antigos libertadores. Os sucessores de João Hircano adotaram o título de rei, ampliaram o território pela força e envolveram-se em lutas internas cada vez mais violentas. Aristóbulo I mandou prender familiares; Alexandre Janeu acumulou as funções de rei e sumo sacerdote, combateu os seus próprios opositores e ficou associado a repressões brutais. A dinastia que nascera para defender a fidelidade à Torá tornava-se, ironicamente, cada vez mais semelhante às monarquias helenísticas contra as quais se tinha revoltado.
Durante este período consolidaram-se também grupos que teriam grande importância na história judaica posterior, como fariseus e saduceus. Os primeiros valorizavam, além da Torá escrita, tradições de interpretação transmitidas oralmente; os segundos estavam mais ligados à aristocracia sacerdotal e ao Templo. As diferenças religiosas estavam profundamente unidas às disputas sociais e políticas.
Salomé Alexandra e a aproximação de Roma
Depois da morte de Alexandre Janeu, a rainha Salomé Alexandra governou entre 76 e 67 a.C. e procurou estabilizar o reino com o apoio dos fariseus. Foi uma das raras mulheres a governar Jerusalém na Antiguidade e o seu reinado trouxe algum equilíbrio. Contudo, a rivalidade entre os filhos Hircano II e Aristóbulo II voltou a mergulhar a dinastia numa guerra pelo poder.
Enquanto os asmoneus se dividiam, Roma avançava pelo Mediterrâneo oriental. Em vez de protegerem a independência conquistada pelos seus antepassados, os rivais acabariam por pedir ajuda aos romanos. O general Pompeu aproximava-se da Judeia e, em 63 a.C., entraria em Jerusalém. A cidade estava prestes a passar novamente para a órbita de um grande império.
Jerusalém entre dois mundos
A era helenística deixou uma marca profunda em Jerusalém. O encontro com a cultura grega trouxe uma língua internacional, novas formas de educação e uma abertura maior ao mundo mediterrânico. Ao mesmo tempo, colocou questões difíceis sobre identidade, assimilação, tradição e poder. A revolta dos Macabeus mostrou até onde uma comunidade estava disposta a ir para defender a sua fé, mas o reino asmoneu mostrou também como uma vitória religiosa podia transformar-se em ambição política e violência interna.
Talvez seja esta a grande lição deste período: Jerusalém nunca viveu isolada. A cidade foi continuamente moldada pelo encontro entre o que vinha de fora e aquilo que os seus habitantes procuravam preservar. Entre Alexandre e Pompeu, esse encontro produziu conflito, criatividade, resistência e uma das festas mais duradouras da tradição judaica.
Nota de rigor histórico: a visita de Alexandre a Jerusalém é conhecida sobretudo pelo relato tardio de Flávio Josefo e não pode ser confirmada. Da mesma forma, o milagre do azeite de Hanukkah pertence à tradição talmúdica posterior e não aparece nos livros dos Macabeus.
Bibliografia e fontes consultadas
MONTEFIORE, Simon Sebag. Jerusalém: A Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, especialmente os capítulos dedicados aos Macedónios e aos Macabeus
GRABBE, Lester L.. A History of the Jews and Judaism in the Second Temple Period, Vol. 2: The Coming of the Greeks. London/New York: T&T Clark, 2008
GRUEN, Erich S.. Heritage and Hellenism: The Reinvention of Jewish Tradition. Berkeley: University of California Press, 1998
COLLINS, John J.. Between Athens and Jerusalem: Jewish Identity in the Hellenistic Diaspora. 2.ª ed., Grand Rapids: Eerdmans, 2000
JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas. Livros XI–XIII
BÍBLIA. Primeiro e Segundo Livros dos Macabeus. fontes antigas fundamentais para a revolta e a rededicação do Templo
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Art of the Hellenistic Age and the Hellenistic Tradition Consultar online
VIDAL-NAQUET, Pierre. Maccabean Revolt. My Jewish Learning Consultar online

