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História · Porto · Porto de Encantos

História do Porto, Parte 1: antes da cidade, os primeiros habitantes

Antes das pontes, das muralhas, das igrejas e dos barcos carregados de vinho, existia apenas um território entre o Atlântico e o Douro. Foi nesse lugar, moldado pela água, pelas elevações e pela pedra, que começaram as primeiras histórias humanas do Porto.

Quando caminhamos hoje pela Foz, por Nevogilde, por Aldoar ou por Campanhã, quase tudo à nossa volta pertence à cidade contemporânea. É difícil imaginar esses mesmos lugares sem avenidas, sem casas e sem o ruído constante do trânsito. No entanto, muito antes de existir uma cidade, já havia aqui pessoas. Não conhecemos os seus nomes, nem a língua que falavam, mas ficaram alguns sinais da sua passagem.

O Porto antes de se chamar Porto

A Pré-História do Porto não se apresenta diante de nós como uma ruína monumental. Surge em fragmentos: uma pedra trabalhada, restos de ocupação, pequenos objetos encontrados longe do centro histórico. A síntese histórica da Câmara Municipal refere vestígios do Mesolítico e do Calcolítico, assim como da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, em zonas como Campanhã, Aldoar e Nevogilde. O livro que serve de base a esta série recua ainda mais e reúne achados atribuídos a cerca de 40 000 a 60 000 anos, identificados na Pasteleira, em São João da Foz, no Castelo do Queijo e em Lavadores, já na margem de Gaia.

Estas datas devem ser lidas com prudência. A arqueologia trabalha com materiais incompletos e com contextos que nem sempre chegaram intactos até nós. No Porto, séculos de construção, demolição e transformação do solo apagaram muitos sinais antigos. O que sobreviveu permite reconhecer presenças humanas muito remotas, mas não reconstituir uma povoação contínua desde esses tempos.

Uma cidade antiga não nasce pronta. Primeiro existe o lugar, depois as presenças humanas e só muito mais tarde um núcleo urbano reconhecível.

Viver em movimento

Os grupos mais antigos viviam da caça, da pesca e da recolha de plantas, frutos e marisco. Deslocavam-se conforme as estações e a disponibilidade de alimento. A proximidade do mar, do estuário e de linhas de água tornava esta região favorável à sobrevivência, enquanto as elevações permitiam observar a paisagem e procurar abrigo.

Não devemos imaginar uma existência simples no sentido de ser fácil. Era uma vida que exigia um conhecimento profundo do território. Era preciso reconhecer animais, plantas, marés, percursos e mudanças do tempo. A sobrevivência dependia da experiência acumulada e transmitida dentro do grupo.

Entre os objetos mais característicos desses períodos encontram-se instrumentos de pedra, como lascas, raspadores e bifaces. Serviam para cortar, raspar, quebrar ou trabalhar outros materiais. Uma pedra talhada é pequena diante de uma cidade inteira, mas pode guardar um gesto humano muito antigo: alguém escolheu a matéria-prima, imaginou uma forma e bateu a pedra até obter uma ferramenta útil.

Biface de quartzito de Atapuerca, com cerca de 350 000 anos. A imagem é ilustrativa da tecnologia da pedra talhada e não representa um achado do Porto. Fotografia de José-Manuel Benito Álvarez. Domínio público. Wikimedia Commons

A grande mudança: cultivar e permanecer

Ao longo de milhares de anos, as comunidades humanas mudaram a forma de ocupar o espaço. A agricultura e a domesticação de animais permitiram produzir parte dos alimentos, em vez de depender apenas daquilo que a natureza oferecia em cada momento. A mudança não aconteceu de uma vez, nem da mesma maneira em todos os lugares. Foi lenta, desigual e profundamente transformadora.

Com uma vida progressivamente mais sedentária, tornou-se possível permanecer durante mais tempo no mesmo local, construir abrigos duradouros e guardar alimentos. As comunidades cresceram, o trabalho diversificou-se e apareceram novas necessidades. A cerâmica ajudava a conservar e a cozinhar. A tecelagem produzia vestuário e recipientes flexíveis. Mais tarde, a metalurgia do cobre e do bronze introduziu outros saberes e novos objetos.

A ligação à terra também alterou a maneira de tratar os mortos e de marcar a paisagem. No Norte de Portugal, os monumentos megalíticos testemunham comunidades capazes de reunir pessoas, transportar grandes pedras e construir espaços funerários destinados a durar. No distrito do Porto destacam-se conjuntos como os da Serra da Aboboreira, do Monte Mozinho e da Serra dos Campelos.

Anta da Chã de Parada, na Serra da Aboboreira. O monumento ajuda-nos a compreender o mundo megalítico da região, embora não se situe no concelho do Porto. Fotografia de Almofrela, 2017. Recorte editorial. Licença CC BY-SA 4.0. Wikimedia Commons

Uma ausência que também conta uma história

Dentro dos limites atuais do Porto não se conservaram grandes monumentos megalíticos comparáveis aos da Aboboreira. Isso não significa, por si só, que o território estivesse vazio. A cidade foi ocupada e reconstruída tantas vezes que muito do seu passado mais remoto pode ter desaparecido ou permanecer escondido sob camadas posteriores.

É uma das dificuldades, e também um dos encantos, de estudar a história urbana. Uma paisagem rural pode preservar um monumento durante milénios. Uma cidade escava fundações, abre ruas, canaliza água, levanta edifícios e volta a ocupar os mesmos lugares. Cada obra pode destruir vestígios, mas também pode revelar inesperadamente aquilo que estava soterrado.

Por isso, a história mais antiga do Porto é feita tanto do que foi encontrado como do que falta encontrar. Exige cuidado com as certezas e abertura para novas descobertas. Um pequeno objeto recolhido numa intervenção arqueológica pode obrigar a rever aquilo que julgávamos saber sobre a ocupação de uma determinada zona.

Do território ao primeiro povoado

No final da Idade do Bronze e no início da Idade do Ferro, a ocupação humana começou a ganhar uma forma mais concentrada num lugar decisivo: o Morro da Sé, também chamado Morro da Penaventosa. A altitude, a defesa natural e a proximidade do Douro tornavam-no especialmente favorável. Aí surgiria o núcleo que está na origem da cidade.

Mas essa já é a etapa seguinte. Antes de subirmos ao Morro da Sé, vale a pena guardar esta primeira imagem: o Porto não começou com uma muralha, um rei ou um nome. Começou com pessoas anónimas que aprenderam a viver entre o rio e o mar, a transformar a pedra, a produzir alimento e a deixar marcas na paisagem.

No próximo artigo: o nascimento do povoado no Morro da Sé.

Bibliografia

  • RAMOS, Luís A. de Oliveira (dir.) (2015). História do Porto. 3.ª edição revista e atualizada. Porto: Porto Editora.
  • SEQUEIRA, Joana (2010). História do Porto: Como nasce uma cidade. Das origens ao Condado Portucalense. Matosinhos: QuidNovi. ISBN 978-989-554-627-5.

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