Depois da destruição provocada pelos babilónios, Jerusalém parecia condenada a permanecer uma cidade ferida e quase esquecida. Mas a queda da Babilónia e a chegada dos persas mudaram novamente o rumo da sua história.

Durante cerca de dois séculos, entre 539 e 332 a.C., Jerusalém viveu sob domínio persa. Não voltou a ser a capital de um reino independente, nem recuperou de imediato a importância que tivera nos tempos de David e Salomão. Ainda assim, foi neste período aparentemente discreto que a cidade renasceu, que o Templo voltou a erguer-se e que a comunidade judaica reorganizou a sua vida em torno da fé, da memória e da Torá.
Esta é uma fase menos conhecida da história de Jerusalém, mas é uma das mais importantes. Sem ela, dificilmente compreenderíamos a cidade que mais tarde seria encontrada pelos gregos, pelos romanos e por tantas gerações de peregrinos.
Ciro, o rei que abriu as portas da Babilónia
Em 539 a.C., Ciro II, conhecido como Ciro, o Grande, conquistou a Babilónia. O vasto império construído por Nabucodonosor passou para as mãos dos persas e, com ele, também Jerusalém e a antiga terra de Judá.
Ciro governava de uma forma diferente dos assírios e dos babilónios. Continuava a ser um conquistador e exigia obediência e tributos, mas compreendeu que um império tão extenso não se podia manter apenas pela violência. Em muitas regiões, preservou cultos locais, restaurou santuários e permitiu que comunidades deslocadas voltassem às suas terras. Era uma política de tolerância, mas também uma forma inteligente de garantir estabilidade e lealdade.
Para os judeus exilados na Babilónia, a mudança foi recebida como uma libertação. O livro de Isaías apresenta Ciro como instrumento de Deus e chega a chamá-lo de “ungido”, uma designação extraordinária para um soberano estrangeiro. Já o livro de Esdras atribui-lhe a autorização para regressar a Jerusalém e reconstruir a Casa do Senhor.

| Nota histórica: o Cilindro de Ciro não menciona Jerusalém, Judá ou o povo judeu. É uma inscrição real relacionada com a Babilónia. A sua importância está em mostrar uma política imperial de restauração de cultos e santuários que ajuda a compreender o contexto do relato bíblico. Também não deve ser apresentado, de forma literal, como a primeira declaração moderna dos direitos humanos. |
O regresso não aconteceu de uma só vez
Quando se fala no regresso do exílio, é fácil imaginar uma grande multidão a abandonar a Babilónia e a caminhar em conjunto para Jerusalém. A realidade terá sido mais lenta e mais complexa. Muitos judeus permaneceram na Mesopotâmia, onde continuaram a formar comunidades numerosas e influentes. Outros regressaram em diferentes vagas, ao longo de várias décadas.
Os primeiros grupos encontraram uma cidade muito diferente daquela que os seus antepassados tinham conhecido. Jerusalém era pequena, pobre e parcialmente arruinada. O Templo já não existia, as muralhas estavam destruídas e a região era habitada por pessoas que não tinham partido para o exílio, além de outras comunidades instaladas durante o domínio babilónico.
A antiga Judá tornou-se a província persa de Yehud. Os que regressavam traziam consigo uma memória muito forte de Jerusalém e do Templo, mas também uma experiência religiosa transformada pelo exílio. O encontro entre os retornados e as populações locais não foi simples. Havia divergências sobre autoridade, pertença e participação no culto. Os textos bíblicos refletem essas tensões, sobretudo na relação com Samaria, mas devemos lê-las lembrando que apresentam principalmente o ponto de vista da comunidade regressada.

Dario, Zorobabel e a reconstrução do Templo
A morte de Ciro, por volta de 530 a.C., e as lutas que se seguiram no império atrasaram a reconstrução. O projeto ganhou novo impulso durante o reinado de Dario I, um dos grandes organizadores do Império Persa.
Em Jerusalém destacaram-se duas figuras. Zorobabel, ligado à antiga linhagem de David, assumiu funções de governo; Josué, ou Jesua, representava a autoridade sacerdotal. Os profetas Ageu e Zacarias encorajaram a população a retomar as obras e apresentaram a reconstrução do Templo como um sinal de renovação espiritual.
Segundo o livro de Esdras, Dario mandou procurar nos arquivos reais a autorização concedida por Ciro. Depois de confirmada, ordenou que as obras prosseguissem. O Segundo Templo ficou concluído em 515 a.C., cerca de setenta anos após a destruição do templo de Salomão.

Este novo santuário seria mais modesto do que o edifício recordado pela tradição. O próprio relato bíblico descreve a mistura de alegria e tristeza no momento em que os alicerces foram lançados. Os mais velhos, que ainda guardavam a memória do Primeiro Templo, choraram; os mais novos celebraram. É uma imagem muito humana: Jerusalém estava a recomeçar, mas o passado continuava presente.
Foi também aqui que começou o chamado período do Segundo Templo, que se prolongaria até ao ano 70 d.C. O edifício inicial foi depois alterado e, muitos séculos mais tarde, profundamente ampliado por Herodes. Por isso, as conhecidas maquetas da Jerusalém herodiana não representam o templo modesto construído no tempo de Zorobabel.
Uma cidade pequena com um centro espiritual enorme
A conclusão do Templo não transformou Jerusalém numa grande metrópole. Durante o período persa, a cidade continuou a ocupar uma área reduzida, concentrada sobretudo em torno da antiga Cidade de David e do monte do Templo. A sua população era limitada e os recursos eram escassos.
Mas o peso espiritual de Jerusalém voltou a crescer. O Templo tornou-se o centro do culto, da administração e da economia local. Os sacerdotes ganharam importância e as peregrinações ajudaram a sustentar a cidade. Ao mesmo tempo, a comunidade passou a definir-se cada vez mais através da Torá, do calendário religioso, das práticas de pureza e da memória comum.
Este processo não foi apenas religioso. Era também uma maneira de preservar uma identidade própria dentro de um império imenso, onde conviviam muitos povos, línguas e tradições. Jerusalém não tinha um rei, mas voltava a ter um centro.
Neemias e as muralhas de Jerusalém
Mais de meio século depois da conclusão do Templo, Jerusalém continuava vulnerável. As suas muralhas permaneciam em ruínas e a cidade tinha poucos habitantes. É neste contexto que surge Neemias, judeu ao serviço do rei Artaxerxes I na corte persa.
Neemias exercia a função de copeiro real, um cargo de grande confiança. Segundo o livro que leva o seu nome, ficou profundamente abalado quando soube do estado de Jerusalém. Pediu autorização ao rei para viajar até Judá e recebeu não apenas permissão, mas também cartas de proteção, recursos e uma escolta.
Chegado a Jerusalém, inspecionou de noite as zonas destruídas e organizou a reconstrução das muralhas. O relato bíblico afirma que a obra foi concluída em cinquenta e dois dias, apesar da oposição dos dirigentes vizinhos. É provável que se tenha tratado da reparação e reutilização de estruturas anteriores, numa área muito menor do que a atual Cidade Velha. A localização exata de alguns troços continua a ser discutida pelos arqueólogos.

Neemias não se limitou às muralhas. Incentivou o povoamento da cidade, procurou corrigir abusos económicos e reforçou as regras que distinguiam a comunidade. Algumas das suas medidas parecem duras aos olhos atuais, sobretudo as relacionadas com casamentos mistos, mas mostram como a defesa da identidade religiosa se tornou central depois do exílio.
A figura de Esdras, sacerdote e escriba associado à leitura pública da Torá, pertence a este mesmo processo, embora a cronologia exata da sua missão continue debatida. Juntos, os livros de Esdras e Neemias mostram uma Jerusalém que se reconstrói não apenas com pedra, mas também através de leis, rituais e memória.
Jerusalém entre autonomia e domínio imperial
Sob os persas, Yehud dispunha de alguma autonomia local, mas continuava integrada no império. A administração, os impostos e a segurança dependiam do poder aqueménida. Internamente, o sumo sacerdote e as famílias ligadas ao Templo assumiram um papel cada vez mais relevante.
Esta relativa estabilidade permitiu que Jerusalém recuperasse, mas também criou novas tensões. O controlo do Templo significava autoridade, prestígio e acesso a recursos. As rivalidades entre famílias sacerdotais e dirigentes locais lembram-nos que a cidade santa nunca esteve afastada da política.
Ainda assim, quando comparado com os traumas provocados pelos assírios e pelos babilónios, o período persa foi uma época de reconstrução. Jerusalém permaneceu pequena, mas voltou a ser habitada, protegida e procurada. O seu Templo estava de pé e a sua comunidade tinha reencontrado um eixo para a vida coletiva.
O fim de uma época
Durante o século IV a.C., o poder persa começou a enfraquecer. As disputas internas e as dificuldades em controlar um território tão vasto abriram espaço a um novo adversário vindo do Ocidente.
Na Macedónia, Filipe II reuniu e treinou um exército capaz de enfrentar a Pérsia. Depois do seu assassinato, o trono passou para o jovem Alexandre. Em poucos anos, Alexandre, o Grande, derrotaria os persas e levaria o mundo grego até às portas de Jerusalém.
A cidade estava prestes a entrar numa nova fase. O Templo, as muralhas e a identidade consolidada durante o domínio persa teriam agora de enfrentar a força da cultura helenística.
Conclusão
Gosto particularmente desta parte da história de Jerusalém porque não é feita apenas de conquistas e destruição. É, acima de tudo, uma história de regresso e reconstrução. Ciro abriu uma possibilidade, Dario confirmou-a, Zorobabel e Josué devolveram o Templo à cidade, e Neemias ajudou a devolver-lhe muralhas e organização.
Jerusalém não recuperou de imediato a grandeza política do passado. Recuperou algo talvez ainda mais duradouro: o seu lugar como centro espiritual de um povo que aprendera a sobreviver longe da sua terra, mas que nunca deixara de olhar para Sião.
Na próxima parte, a história de Jerusalém cruza-se com Alexandre, o Grande, com os seus sucessores e com os primeiros grandes conflitos provocados pelo encontro entre o judaísmo e o mundo helenístico.
Bibliografia
Bíblia Hebraica / Antigo Testamento: 2 Crónicas 36; Esdras 1-10; Neemias 1-13; Isaías 40-55; Ageu; Zacarias.
MONTEFIORE, Simon Sebag. Jerusalém: A Biografia. 9.ª ed. revista e aumentada. Lisboa: Crítica, 2025.
