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Israel · Livros · Pessoas

“Refém”, de Eli Sharabi: 491 dias nas mãos do Hamas e uma extraordinária escolha pela vida

Há livros de que gostamos pela beleza da escrita, outros pelo conhecimento que nos oferecem. E há livros como Refém: 491 dias nas mãos do Hamas, de Eli Sharabi, que nos marcam sobretudo porque dão um rosto, uma voz e uma história humana a acontecimentos que nunca poderão ser reduzidos a números.

Li este livro e gostei muito, embora “gostar” possa parecer uma palavra estranha perante um testemunho tão doloroso. Houve partes que me custaram verdadeiramente a ler. Precisei de parar, respirar e tentar compreender como alguém conseguiu sobreviver a tamanha crueldade.

O homem por detrás do refém

Eli Sharabi vivia no kibutz Be’eri com a mulher, Lianne, e as duas filhas adolescentes, Noiya e Yahel. A 7 de Outubro de 2023, terroristas do Hamas invadiram a sua casa, separaram-no da família e levaram-no à força para Gaza.

Esse dia não foi um ato de resistência. Foi um massacre terrorista dirigido contra civis. Homens, mulheres, idosos e crianças foram assassinados, feridos ou sequestrados. Famílias inteiras foram destruídas dentro das próprias casas. Para quem, como eu, defende o direito de Israel existir e de proteger a sua população, não pode haver qualquer tentativa de relativizar ou justificar aquilo que aconteceu.

Condenar esta atrocidade não significa ignorar o sofrimento dos civis palestinianos. Significa reconhecer uma verdade elementar: o rapto, o assassínio e a tortura de civis nunca podem ser legitimados por uma causa política.

Eli passou 491 dias em cativeiro. Foi libertado a 8 de fevereiro de 2025, fisicamente irreconhecível, extremamente magro e debilitado. Durante todo esse tempo, agarrou-se à esperança de regressar à mulher e às filhas. Só quando chegou a Israel soube que Lianne, Noiya e Yahel tinham sido assassinadas no próprio dia do ataque. O irmão, Yossi, também sequestrado, morreu durante o cativeiro. A notícia sobre o destino da família foi confirmada após a libertação de Eli.

É difícil imaginar o que significa sobreviver durante 491 dias alimentado por uma esperança e, ao regressar, descobrir que o mundo para o qual se queria voltar já não existia da mesma forma.

Uma descida real à escuridão

Uma das passagens que mais me impressionou foi a descida de Eli aos túneis do Hamas. O leitor acompanha-o por escadas que parecem não terminar, cada vez mais fundo, até à escuridão subterrânea de Gaza.

A escrita é simples e direta. Eli não procura ornamentar o sofrimento nem transformar o relato numa narrativa heroica. Descreve o medo, a ansiedade, a falta de ar, a fome, os espancamentos, as correntes, a ausência de higiene, a doença e a incerteza. Essa sobriedade torna tudo ainda mais difícil de ler.

A escuridão dos túneis não é apenas física. É também psicológica. Os reféns não sabem se serão libertados, mortos ou transferidos. Não sabem o que aconteceu às suas famílias. Dependem dos próprios captores para receber comida, água ou alguma notícia do exterior.

O Hamas tenta controlar não apenas os corpos, mas também as palavras e a perceção da realidade. Eli conta como os reféns foram filmados para vídeos de propaganda e obrigados a repetir mensagens previamente determinadas. As imagens de um refém difundidas durante o cativeiro não podem, por isso, ser interpretadas como declarações livres. São palavras pronunciadas sob ameaça.

Observar para sobreviver

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a forma como Eli observa os seus captores. Fala árabe, escuta as conversas, analisa os comportamentos e procura compreender as diferenças entre eles. Essa capacidade de observar torna-se uma estratégia de sobrevivência.

Eli percebe quando deve falar, quando deve calar-se e quando deve fingir concordância. Estuda rotinas, personalidades e reações. Pesa cada palavra porque sabe que qualquer erro pode ter consequências.

As conversas revelam também o discurso ideológico transmitido pelos homens ligados ao Hamas: a negação do direito de Israel existir, a ideia de que os judeus não pertencem àquela terra e a repetição de que nunca haverá paz enquanto ali permanecerem.

Numa das passagens mais marcantes, perante todo o ódio que sente ter sido ensinado ao seu captor, Eli responde apenas que “a maioria dos israelitas é como eu”. É uma frase curta, mas profundamente humana. Ele tenta mostrar que, do outro lado da propaganda, existem pessoas comuns, famílias, pais, filhos e indivíduos que desejam viver em segurança.

O livro não confunde esta capacidade de observação com uma desculpabilização. Eli consegue reconhecer traços humanos nos homens que o guardam e, simultaneamente, nunca esquece que está sequestrado, acorrentado e privado da sua liberdade.

As atrocidades de 7 de Outubro

Uma das partes que mais me custou ler foi aquela em que Eli descobre, ainda no cativeiro, que mulheres e crianças também tinham sido levadas para Gaza.

Até esse momento, ele procurava acreditar que a mulher e as filhas estariam vivas e protegidas. Quando percebe a dimensão dos raptos, admite pela primeira vez a possibilidade de elas também terem sido feitas reféns.

Ao perguntar aos captores por que razão sequestraram mulheres e crianças, ouve como resposta que teria sido “um erro”. Mas não foi um erro. Não foi um acontecimento isolado nem uma consequência acidental. Foi parte de um ataque organizado no qual civis foram deliberadamente perseguidos.

O 7 de Outubro deve permanecer na memória coletiva pelo que realmente foi: uma atrocidade terrorista e um dos dias mais negros da história recente de Israel e do povo judeu.

A força dos laços criados no cativeiro

Apesar de toda a escuridão, Refém é também um livro sobre solidariedade. Os reféns apoiam-se, conversam, rezam, fazem pequenos exercícios e inventam formas de ocupar o tempo. Partilham histórias e tentam impedir que os companheiros percam a esperança.

Eli torna-se uma figura protetora para os mais novos. A sua experiência, disciplina e capacidade de manter a cabeça fria ajudam o grupo a sobreviver. Mesmo quando sente medo, procura transmitir segurança aos outros.

Entre os homens com quem esteve preso encontravam-se Eliya Cohen e Alon Ohel. Eli acreditava que Ziv Abud, companheira de Eliya, tinha sobrevivido ao ataque ao festival Nova e ajudou-o a manter essa esperança. Anteontem, Eliya e Ziv casaram-se, rodeados por outros sobreviventes. Eli Sharabi esteve presente nesse momento.

Depois da escuridão dos túneis, ver estas pessoas novamente juntas, a celebrar o amor e a vida, tem um significado muito especial. Não apaga o que aconteceu, mas demonstra que o Hamas não conseguiu destruir tudo.

Um testemunho necessário

Este não é um livro fácil. Há passagens que provocam revolta, angústia e uma profunda tristeza. No entanto, é precisamente por isso que considero a sua leitura necessária.

Vivemos num tempo em que os acontecimentos são rapidamente transformados em slogans políticos. As vítimas desaparecem por detrás dos debates, das manifestações e das publicações nas redes sociais. Refém obriga-nos a regressar à experiência individual. Eli Sharabi não é uma estatística. É um homem arrancado à sua família, mantido durante 491 dias em condições desumanas e confrontado, no regresso, com uma perda quase impossível de suportar.

Ainda assim, escolheu viver.

A grande força do livro está nessa escolha. Eli não permite que o Hamas tenha a última palavra sobre a sua vida. Não esquece, não desculpa e não esconde aquilo que sofreu. Mas também se recusa a ficar para sempre prisioneiro do ódio e da dor.

Defender Israel, para mim, é também defender o direito destas pessoas viverem em segurança,é recusar a normalização do terrorismo e exigir que a memória das vítimas não seja apagada ou relativizada.

Recomendo muito a leitura de Refém. Não porque seja confortável, mas porque é um testemunho histórico, humano e urgente. É um livro sobre aquilo que o terrorismo procura destruir, mas também sobre aquilo que, por vezes, não consegue vencer: a dignidade, a solidariedade, a esperança e o amor pela vida.

Ficha do livro

Título: Refém: 491 dias nas mãos do Hamas
Autor: Eli Sharabi
Editora: Guerra & Paz
Publicação em Portugal: janeiro de 2026
Número de páginas: 208
ISBN: 9789895763511
Género: Memórias e testemunhos

A edição portuguesa pode ser consultada na WOOK. Informações adicionais sobre a obra e o autor encontram-se também na página da Swift Press e no testemunho escrito pelo próprio Eli Sharabi para o The Washington Post.

Foreign, Commonwealth & Development OfficeCC BY 4.0, via Wikimedia Commons
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Photo by Kobi Gideon / GPO

Quase três anos depois do 7 de Outubro, Eli Sharabi reencontrou Eliya Cohen e Alon Ohel num momento de celebração e esperança: o casamento de Eliya e Ziv Abud.

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