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Porto · Porto de Encantos

História do Porto: Uma cidade entre o rio e o mar

Há cidades que se visitam. O Porto, para mim, é uma cidade que se lê. Lê-se nas encostas voltadas ao Douro, nas ruas que sobem e descem sem pedir licença, nas pedras das muralhas, nas fachadas, nos mercados, nas igrejas, nas pontes e até nos nomes dos lugares. Cada geração deixou aqui qualquer coisa. Umas vezes construiu, outras destruiu, adaptou ou voltou a começar.

É com esta ideia que começo uma nova série no Espaço de Maria. Enquanto descobrimos a História de Jerusalém, quero percorrer a história do Porto, a cidade que habito e observo tantas vezes com a curiosidade de quem procura perceber o que existe por baixo da paisagem atual.

Antes da cidade, o lugar

O Porto não nasceu num único dia, nem começou com uma data rigorosa que possamos assinalar no calendário. Muito antes de existir a cidade que hoje reconhecemos, já este território era ocupado por comunidades humanas. No atual concelho foram encontrados vestígios que remontam à Pré-História, enquanto o Morro da Penaventosa, onde se ergue a Sé, conserva camadas de ocupação com mais de 2500 anos.

A escolha do lugar não foi acidental. A elevação permitia vigiar a paisagem e oferecia melhores condições de defesa. Em baixo, o Douro abria caminhos para o interior e para o Atlântico. Entre o alto e a margem, entre a proteção e a circulação, foram-se formando os dois movimentos que acompanhariam a vida do Porto ao longo dos séculos: o poder instalado no morro e a atividade humana concentrada junto ao rio.

As escavações arqueológicas revelam que o Porto atual assenta sobre outros Portos. Debaixo das ruas encontram-se vestígios de habitações, estruturas defensivas, objetos de uso quotidiano e marcas deixadas por povos diferentes. A cidade é, por isso, uma espécie de arquivo construído em camadas. Nem sempre as respostas são definitivas e algumas interpretações continuam a ser discutidas pelos investigadores. É precisamente isso que torna a sua história tão interessante.

Do povoado a Portus Cale

Com a presença romana, o povoado integrou-se numa rede mais vasta de caminhos, trocas e administração. O nome Portus, associado à função portuária, acabaria ligado a Cale, embora a localização e a evolução exatas desta designação tenham sido objeto de debate histórico e arqueológico. Ao longo do tempo, Portucale passaria a identificar uma região mais ampla e o seu nome ficaria ligado ao próprio nascimento de Portugal.

É impossível contar a história portuense sem olhar para o que acontecia à sua volta. Romanos, Suevos, Visigodos e muçulmanos deixaram marcas na Península. A Reconquista cristã, a restauração da diocese e a formação do Condado Portucalense trouxeram novas estruturas de poder. O Porto participou nestas transformações e, em vários momentos, foi também palco delas.

Planta do Porto e arredores, cerca de 1830. A cidade já ultrapassava largamente o núcleo medieval, mantendo o Douro como grande eixo da paisagem. Lemos, A. C.; Oficina Régia Litográfica. Biblioteca Nacional de Portugal. Domínio público. Wikimedia Commons

Uma cidade virada para o Douro e para o mundo

Se o morro ajudou a proteger o primeiro núcleo urbano, o rio deu-lhe movimento. Pelo Douro circularam pessoas, produtos, notícias e ideias. O Porto cresceu como lugar de passagem e de encontro, próximo do mar e ligado ao interior duriense. A atividade comercial ganhou força na zona ribeirinha, enquanto no alto se concentravam as instituições religiosas e políticas.

A cidade medieval desenvolveu-se entre estes dois polos. As ruas adaptaram-se ao relevo, os bairros adensaram-se e o espaço urbano ultrapassou a antiga cerca. No século XIV, a construção da Muralha Fernandina tornou visível a dimensão desse crescimento. O seu perímetro abrangia o núcleo do morro e a zona portuária, protegendo uma cidade já maior, mais povoada e mais complexa.

Trecho das Muralhas Fernandinas junto aos Guindais. A nova cerca medieval acompanhou a expansão da cidade no século XIV. Fotografia de Concierge.2C, 2010. Licença CC BY-SA 3.0. Wikimedia Commons

O Porto em muitas camadas

Ao longo dos séculos, o Porto foi cidade episcopal, mercantil, marítima, vinícola, liberal, industrial, universitária e cultural. Nenhuma destas identidades anulou completamente as anteriores. Pelo contrário, foram-se sobrepondo e misturando.

Os estaleiros portuenses participaram no esforço marítimo português. O comércio com o Brasil e, mais tarde, a afirmação do vinho do Porto atraíram mercadores e comunidades estrangeiras. No século XVIII, as obras promovidas pelos Almadas transformaram ruas, acessos e edifícios. No século XIX, a cidade enfrentou invasões, guerras civis, o Cerco do Porto, mudanças políticas e uma industrialização que trouxe riqueza, mas também desigualdade e condições de vida muito duras.

A tradição liberal e cívica tornou-se parte da memória portuense. A Revolução Liberal de 1820, o Cerco do Porto e a revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891 ajudaram a fixar a imagem de uma cidade inconformada. Já no século XX, o crescimento urbano, a expansão das infraestruturas, a universidade, a cultura e as transformações sociais voltaram a alterar a sua fisionomia.

Em 1996, o Centro Histórico do Porto foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO. A classificação reconheceu não apenas monumentos isolados, mas uma paisagem urbana construída ao longo de muitos séculos, em diálogo permanente com o Douro. Hoje, preservar essa herança significa cuidar dos edifícios e também manter vivo o tecido humano da cidade.

Uma história da cidade que também é história do país

Contar a história do Porto é olhar para Portugal a partir de um lugar concreto. O nome do país, a organização medieval do território, a expansão marítima, o comércio atlântico, o vinho, o Liberalismo, a industrialização, a emigração e a democracia encontram aqui episódios, protagonistas e marcas visíveis.

Mas esta série não será apenas uma sucessão de reis, bispos, guerras e datas. Quero procurar também a vida das pessoas comuns: quem trabalhava no rio, quem vendia nos mercados, quem construía as casas, quem chegava de fora, quem partia, quem vivia dentro e fora das muralhas. Uma cidade faz-se de decisões políticas, mas faz-se sobretudo das vidas que a atravessam.

O caminho desta nova série

Esta introdução é apenas a porta de entrada. A partir do próximo artigo, regressaremos aos tempos mais antigos, antes de o Porto ter este nome, para descobrir como o lugar começou a tornar-se cidade.

Vamos percorrer esta história juntos?

Bibliografia

  • RAMOS, Luís A. de Oliveira (dir.) (2015). História do Porto. 3.ª edição revista e atualizada. Porto: Porto Editora.
  • SEQUEIRA, Joana (2010). História do Porto: Como nasce uma cidade. Das origens ao Condado Portucalense. Matosinhos

Fontes institucionais e recursos online

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