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História · Israel

A História de Jerusalém: Parte 4 | Entre reis, profetas e impérios

Jerusalém entre reis, profetas e impérios: os séculos que moldaram uma cidade

Depois do esplendor alcançado durante os reinados de David e Salomão, Jerusalém entrou num dos períodos mais conturbados da sua longa história. O reino unificado de Israel dividiu-se, novas potências surgiram no Médio Oriente e a cidade passou a viver entre guerras, alianças, reformas religiosas e ameaças constantes.

Apesar das dificuldades, foi precisamente nesta época que Jerusalém consolidou grande parte da sua identidade religiosa e espiritual. Os ensinamentos dos profetas, as reformas promovidas por alguns reis e a resistência perante os grandes impérios deixaram marcas profundas que atravessariam os séculos.

A divisão do reino

Com a morte de Salomão, por volta de 930 a.C., o reino unido deixou de existir. O seu filho Roboão recusou aliviar a pesada carga fiscal imposta ao povo e as tribos do norte revoltaram-se, proclamando Jeroboão como rei de um novo reino: Israel.

A partir desse momento passaram a existir dois estados hebraicos: o Reino de Israel, a norte, e o Reino de Judá, a sul, mantendo Jerusalém como capital e centro religioso.

A divisão enfraqueceu os dois reinos. Durante cerca de dois séculos, alternaram entre períodos de conflito e alianças ocasionais, tornando-se cada vez mais vulneráveis perante as grandes potências vizinhas.

Jerusalém perante as grandes potências

Enquanto Judá procurava sobreviver, o Egito voltou a exercer influência na região. Segundo a tradição bíblica, poucos anos após a morte de Salomão, o faraó Sheshonq I, conhecido como Sisac nos textos bíblicos, invadiu Jerusalém e levou parte dos tesouros do Templo.

Mais tarde, seria a Assíria a transformar-se na maior ameaça do Próximo Oriente. Com um exército extremamente organizado e campanhas militares implacáveis, os reis assírios expandiram rapidamente o seu domínio.

Israel e Judá viram-se obrigados a escolher entre pagar tributos, estabelecer alianças ou enfrentar um poder militar muito superior.

Jezabel, Atalia e um período de instabilidade

Durante este período destacou-se a influência da rainha Jezabel, esposa do rei Acabe de Israel. Defensora do culto de Baal, tornou-se uma das figuras mais controversas da tradição bíblica.

A sua filha Atalia acabaria por governar Jerusalém após uma violenta luta pelo poder. O seu reinado ficou associado à perseguição da dinastia davídica e à promoção de cultos considerados pagãos pelos autores bíblicos.

Segundo esses relatos, apenas o jovem príncipe Joás sobreviveu, graças à proteção dos sacerdotes do Templo, permitindo a continuação da linhagem de David.

A queda do Reino de Israel e o crescimento de Jerusalém

Em 722 a.C., a Assíria conquistou Samaria e pôs fim ao Reino de Israel, no norte. Muitos habitantes procuraram refúgio em Judá, contribuindo para o crescimento de Jerusalém.

A cidade expandiu-se para zonas que antes se encontravam fora do núcleo mais antigo e reforçou as suas estruturas defensivas. A partir de então, Jerusalém tornou-se ainda mais importante como centro político e religioso do povo de Judá.

Isaías e a esperança de Jerusalém

No meio das sucessivas crises surgiu uma das figuras mais marcantes da história religiosa de Jerusalém: o profeta Isaías.

Vivendo durante o século VIII a.C., Isaías denunciava a corrupção, a injustiça social e a infidelidade religiosa, mas também transmitia uma poderosa mensagem de esperança.

A visão segundo a qual os povos «transformarão as suas espadas em relhas de arado» tornou-se um dos maiores símbolos universais da paz. Para Isaías, Jerusalém não era apenas uma cidade: era um centro espiritual destinado a inspirar todas as nações.

Ezequias e a preparação para o cerco

Um dos reis mais importantes de Judá foi Ezequias. Consciente da ameaça assíria, promoveu reformas religiosas, eliminou diversos cultos considerados pagãos e reforçou significativamente as defesas da cidade.

A sua obra de engenharia mais famosa foi o Túnel de Ezequias, uma extraordinária galeria subterrânea com cerca de 533 metros, escavada na rocha para conduzir as águas da fonte de Giom até ao tanque de Siloé. O objetivo era garantir o abastecimento de água durante um eventual cerco.

O túnel ainda hoje pode ser percorrido pelos visitantes de Jerusalém e constitui um dos testemunhos arqueológicos mais fascinantes do período bíblico.

Interior do Túnel de Ezequias, escavado sob a Cidade de David para conduzir a água da fonte de Giom até ao tanque de Siloé. Fotografia: Ian Scott — CC BY-SA 2.0 / Wikimedia Commons. Ver imagem e licença

A Inscrição de Siloé: a voz dos construtores

Descoberta no interior do túnel no século XIX, a Inscrição de Siloé descreve o momento em que duas equipas, escavando a partir de lados opostos, finalmente se encontraram no interior da rocha.

Este pequeno texto transforma uma impressionante obra de engenharia numa história profundamente humana: a de trabalhadores que avançaram através da pedra até ouvirem as vozes uns dos outros e completarem o canal.

Registo histórico da Inscrição de Siloé, que descreve o encontro das duas equipas de escavação no interior do túnel. Matson Collection, Library of Congress — domínio público / Wikimedia Commons. Ver imagem e licença

O cerco de Senaqueribe

Em 701 a.C., o poderoso rei assírio Senaqueribe lançou uma grande campanha militar contra Judá. Depois de conquistar várias cidades fortificadas, incluindo Laquis, o exército assírio avançou sobre Jerusalém.

A situação parecia desesperada. As fontes assírias descrevem Ezequias como alguém «fechado em Jerusalém como um pássaro numa gaiola», enquanto a tradição bíblica atribui a sobrevivência da cidade à intervenção divina.

Jerusalém não foi destruída, mas Judá permaneceu sob forte pressão e teve de pagar tributo. O episódio ficou registado tanto nos textos bíblicos como nas inscrições reais assírias, permitindo comparar duas perspetivas sobre o mesmo acontecimento.

Prisma de Taylor, onde os anais de Senaqueribe registam a campanha assíria em Judá. British Museum. Fotografia: Gary Todd — CC0 / Wikimedia Commons. Ver imagem e licença

O reinado de Manassés

Após a morte de Ezequias, subiu ao trono o seu filho Manassés, apresentado pela tradição bíblica como um dos reis mais controversos de Judá.

Restabeleceu cultos pagãos, incentivou práticas religiosas condenadas pelos profetas e ficou associado aos sacrifícios humanos realizados no vale de Hinom. Este local acabaria por dar origem ao termo Geena, mais tarde usado como símbolo do castigo nas tradições judaica e cristã.

Apesar das críticas presentes nos textos bíblicos, o seu longo reinado decorreu num período relativamente estável do ponto de vista político, graças à submissão ao Império Assírio.

Uma cidade moldada pela resistência

Ao longo destes séculos, Jerusalém viveu sob constante pressão. Foi ameaçada por exércitos estrangeiros, atravessou crises políticas e religiosas e enfrentou profundas divisões internas.

Mas foi precisamente nestas dificuldades que se consolidaram elementos fundamentais da sua identidade. Os ensinamentos dos profetas, a centralidade do Templo, a memória da dinastia de David e a esperança numa futura restauração tornaram-se pilares da tradição judaica.

Jerusalém deixava de ser apenas uma capital política para afirmar-se como uma cidade cuja importância ultrapassava as fronteiras do Reino de Judá.

Conclusão

A história de Jerusalém durante os reinados de Judá mostra-nos uma cidade constantemente colocada à prova. Entre invasões, reformas religiosas e conflitos internos, sobreviveu graças à capacidade de adaptação dos seus habitantes e à força da sua identidade espiritual.

Os acontecimentos destes séculos preparariam, contudo, um dos momentos mais dramáticos da sua história: a conquista por Nabucodonosor, a destruição do Primeiro Templo e o exílio na Babilónia.

Será precisamente essa a próxima etapa da nossa viagem.

Referências bibliográficas

ARMSTRONG, Karen (1997). Jerusalém: Uma Cidade, Três Religiões. Lisboa: Temas e Debates.

CAHILL, Thomas (2003). A Dádiva dos Judeus. Lisboa: Editorial Presença.

JOHNSON, Paul (1988). História dos Judeus. Lisboa: Bertrand Editora.

BÍBLIA SAGRADA. Livros de 1 Reis, 2 Reis, 2 Crónicas e Isaías.

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