Os Pergaminhos do Mar Morto: a maior descoberta arqueológica do século XX

Durante séculos, muitos acreditavam que determinados textos antigos da Bíblia e da tradição judaica tinham desaparecido para sempre. No entanto, em meados do século XX, uma descoberta inesperada no deserto viria mudar a História da arqueologia, da religião e do estudo do mundo antigo. Os chamados “Pergaminhos do Mar Morto” continuam ainda hoje envoltos em mistério, fascínio e até questões políticas que poucas pessoas conhecem.

O que são os Pergaminhos do Mar Morto?

Os Pergaminhos do Mar Morto são manuscritos antigos escritos há mais de dois mil anos. Muitos deles foram redigidos entre o século III a.C. e o século I d.C., numa época marcada pela presença romana na Judeia e por profundas tensões religiosas e políticas.

Os textos foram escritos principalmente em hebraico, mas também existem partes em aramaico e grego. Alguns contêm livros da Bíblia Hebraica, enquanto outros apresentam regras de comunidades judaicas, comentários religiosos, hinos, profecias e textos apocalípticos.

A descoberta destes documentos permitiu compreender melhor como viviam determinados grupos judaicos antes da destruição do Segundo Templo de Jerusalém no ano 70 d.C.

Como foram encontrados?

A descoberta aconteceu em 1947, de forma quase acidental. Segundo a versão mais conhecida, um jovem pastor beduíno procurava uma cabra perdida perto das cavernas de Qumran, junto ao Mar Morto. Ao lançar uma pedra para o interior de uma gruta, ouviu o som de algo a partir-se.

Curioso, entrou na caverna e encontrou grandes jarros de barro. Dentro deles estavam antigos pergaminhos enrolados em tecido de linho. Sem imaginar a importância histórica daqueles manuscritos, os beduínos venderam alguns deles a comerciantes de antiguidades.

Com o passar do tempo, arqueólogos perceberam que estavam perante uma das maiores descobertas arqueológicas do século XX.

As cavernas de Qumran e novas descobertas

Depois da descoberta inicial, começaram escavações arqueológicas na região de Qumran. Entre 1947 e 1956 foram encontradas onze cavernas com milhares de fragmentos de manuscritos.

Calcula-se que existissem cerca de 900 documentos diferentes. Muitos estavam fragmentados devido ao tempo, à humidade, às guerras e às condições do deserto.

Entre os textos mais famosos encontram-se:

  • O Grande Rolo de Isaías
  • O Manual da Disciplina
  • O Rolo da Guerra
  • Comentários bíblicos antigos
  • Hinos religiosos judaicos

O chamado Grande Rolo de Isaías é especialmente importante porque contém quase todo o Livro de Isaías e é mais de mil anos mais antigo do que muitas cópias bíblicas conhecidas anteriormente.

Quem escreveu os pergaminhos?

Ainda hoje existe debate entre historiadores e arqueólogos. Muitos especialistas acreditam que os manuscritos pertenciam a uma comunidade judaica chamada essénios, um grupo religioso que vivia de forma isolada no deserto.

Os essénios procuravam pureza espiritual, tinham regras rigorosas de vida comunitária e aguardavam a chegada de tempos messiânicos.

No entanto, alguns investigadores defendem que os textos podem ter vindo de diferentes grupos judaicos de Jerusalém e terem sido escondidos nas cavernas durante a guerra contra Roma.

Porque são tão importantes?

A importância dos Pergaminhos do Mar Morto é enorme.

Antes da sua descoberta, os manuscritos bíblicos hebraicos mais antigos conhecidos eram medievais. Os pergaminhos permitiram comparar textos separados por mais de mil anos e perceber como certos textos bíblicos foram preservados ao longo do tempo.

A descoberta também ajudou os estudiosos a compreender:

  • As divisões religiosas existentes na época
  • As práticas e crenças judaicas antigas
  • A transmissão dos textos bíblicos

Além disso, os pergaminhos mostraram que existia uma grande diversidade de pensamento religioso no mundo judaico daquela época.

A Jordânia, Israel e a Guerra dos Seis Dias

Uma parte da história dos Pergaminhos do Mar Morto é pouco conhecida do grande público.

Quando os manuscritos foram descobertos, a região de Qumran encontrava-se sob controlo da Jordânia. Durante vários anos, muitos dos pergaminhos ficaram em Jerusalém Oriental, então administrada pelos jordanos.

Alguns manuscritos foram guardados no Museu Arqueológico conhecido atualmente como Museu Rockefeller.

Entretanto, um dos pergaminhos mais famosos, o Grande Rolo de Isaías, acabou por ser levado para Jerusalém Ocidental e encontra-se hoje preservado no famoso Santuário do Livro, em Museu de Israel.

No entanto, existe ainda hoje um importante pergaminho na Jordânia. O chamado “Pergaminho de Cobre” encontra-se no Museu Arqueológico da Jordânia. Este manuscrito é diferente dos restantes porque foi gravado em folhas de cobre e não em pele ou papiro.

Em 1967 aconteceu a Guerra dos Seis Dias. Israel conquistou Jerusalém Oriental e passou a controlar a zona onde muitos pergaminhos estavam armazenados. Nessa altura, houve preocupação em proteger e preservar os manuscritos, reconhecendo o seu valor histórico universal.

Apesar das tensões políticas da região, Israel investiu fortemente na conservação, estudo e digitalização dos pergaminhos. Hoje muitos deles estão cuidadosamente preservados em ambientes especiais para evitar a deterioração causada pela luz, humidade e temperatura.

O mistério e as polémicas

Ao longo das décadas surgiram várias polémicas e teorias.

Durante muitos anos, alguns investigadores acusaram as equipas responsáveis de demorarem demasiado tempo a publicar os textos completos. Isso alimentou rumores e teorias da conspiração.

Também existe debate sobre a propriedade dos manuscritos, especialmente entre Israel e a Jordânia.

Além disso, vários fragmentos apareceram em coleções privadas e museus internacionais. Alguns foram posteriormente considerados falsificações modernas.

Mesmo assim, os Pergaminhos do Mar Morto continuam a ser uma das fontes mais valiosas para compreender o mundo antigo.

Onde podem ser vistos hoje?

Grande parte dos pergaminhos encontra-se atualmente em Israel, especialmente no Santuário do Livro, uma das áreas mais conhecidas do Museu de Israel.

Outros fragmentos estão em instituições académicas e museus espalhados pelo mundo.

O Pergaminho de Cobre permanece na Jordânia, sendo um símbolo importante do património arqueológico do país.

Hoje muitos destes manuscritos também podem ser consultados digitalmente graças a projetos internacionais de preservação.

Um tesouro que atravessou guerras e séculos

É impressionante pensar que documentos escondidos em cavernas do deserto conseguiram sobreviver durante mais de dois mil anos. Sobreviveram ao Império Romano, ao passar dos séculos, ao deserto e até às guerras modernas do Médio Oriente.

Quantos segredos ainda estarão escondidos nas areias do deserto? E quantas histórias antigas continuam por descobrir?

No fundo, os Pergaminhos do Mar Morto lembram-nos que a História nunca está completamente perdida. Às vezes, ela apenas espera silenciosamente para ser reencontrada.

Referências Bibliográficas:

  • Ferreira, F. A. B. (2020). Os Manuscritos do Mar Morto, o Documento de Damasco e a vida comunitária dos essênios [Artigo científico, Universidade Estácio de Sá].
  • Israel Antiquities Authority. (s.d.). The Leon Levy Dead Sea Scrolls Digital Library. https://www.deadseascrolls.org.il/
  • Israel Museum. (s.d.). Dead Sea Scrolls. The Israel Museum, Jerusalem. https://www.imj.org.il/en/wings/shrine-book/dead-sea-scrolls
  • Ministry of Tourism and Antiquities of Jordan. (s.d.). Jordan Archaeological Museum. https://mota.gov.jo/Default/Ar
  • Nascimento, A. (2017, julho 15). Das cavernas para a internet. Diário de Pernambuco.
  • The Editors of Encyclopaedia Britannica. (s.d.). Dead Sea Scrolls. Encyclopaedia Britannica. https://www.britannica.com/topic/Dead-Sea-Scrolls
  • UNESCO. (s.d.). Qumran caves and the Dead Sea Scrolls. UNESCO World Heritage Centre. https://whc.unesco.org/en/tentativelists/5885/
  • Vieira, F. M. (2013). Os Manuscritos do Mar Morto e o Santuário do Livro: Entrevista com Adolfo D. Roitman. Revista História e Cultura, 2(3), 4–12.
  • Vieira, F. M. (Org.). (2017). Manuscritos do Mar Morto: 70 anos da descoberta. Humanitas.
Desert cliffs and landscape in Qumran, near the Dead Sea
Caves of the Dead Sea Scrolls in Qumran.
Caves of Qumran, manuscripts of the Dead Sea.
Dead Sea Scrolls Online Library Launched
New Research Reveals Dead Sea Scrolls Older Than Previously Thought | ArmstrongInstitute.org
The “Original” Bible and the Dead Sea Scrolls – Biblical Archaeology Society
L’odyssée des manuscrits de la mer Morte : des fragments au « deep learning »
Dead Sea Scrolls
Another Dead Sea Scroll cave has been explored – what did they find? – Middle East – International – News – Catholic Online
From Qumran to Jerusalem: The Significance of the Dead Sea Scrolls for Judaism and Christianity – מוזיאון ישראל, ירושלים
Shrine of the Book


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