Purim: a festa Judaica que celebra a sobrevivência

Há festas que nascem de um milagre e ficam na memória e Purim é uma delas. É uma celebração marcada por alegria, riso, partilha e até fantasias, mas por trás desse tom leve está uma história tensa, com medo real, decisões difíceis e uma reviravolta que, durante séculos, tem sido lida e relida como sinal de esperança.

Purim lembra um tempo em que os judeus viviam espalhados pelo Império Persa, uma potência enorme da Antiguidade. Jerusalém e o Primeiro Templo já tinham sido destruídos, e muitas famílias judias tinham ficado longe da sua terra. É nesse cenário que surge a história de Ester e Mordechai, contada no Livro de Ester e lida publicamente na sinagoga na Meguilá (o “Rolo de Ester”).

Um rei, um palácio e uma mudança inesperada

O rei chamava-se Achashverosh (conhecido em português como Assuero). Para mostrar riqueza e poder, organizou grandes banquetes e festas. Numa dessas ocasiões, quis exibir a rainha Vashti perante os convidados. Ela recusou. A recusa foi tratada como afronta grave e Vashti acabou afastada e condenada.

Com o lugar de rainha em aberto, procurou-se uma nova esposa no reino. Entre as jovens levadas ao palácio estava Ester, judia e órfã, criada pelo seu primo (ou tutor) Mordechai, que era uma figura respeitada na comunidade judaica. Ester foi escolhida, mas manteve a sua origem em segredo, seguindo o conselho de Mordechai. No exterior, parecia apenas mais um episódio de corte. Mas, sem que ninguém percebesse, a história estava a preparar o terreno para algo muito maior.

Mordechai salva o rei e ganha um inimigo

A certa altura, Mordechai descobre uma conspiração dentro do palácio e avisa Ester, que alerta o rei. A vida do rei é salva e o feito fica registado, ainda que, por algum tempo, sem recompensa.

Entretanto, sobe ao poder Haman, o homem forte do reino, chefe dos ministros. Haman exige honra total. Quer que todos se curvem diante dele. Mordechai recusa-se a fazê-lo. Essa recusa acende um ódio que não fica apenas entre dois homens. Haman decide que, para atingir Mordechai, vai atingir o povo inteiro.

O decreto que mudava tudo

Haman convence o rei de que existe um povo “diferente”, espalhado pelo império, que não segue as leis como os outros, e pede autorização para eliminá-lo. O rei, sem perceber a dimensão do que assina, concorda. O decreto é enviado para todas as províncias: num dia marcado, os judeus deveriam ser exterminados e os seus bens saqueados. A data é escolhida por sorteio. Em hebraico, “sorte” é pur. Daí vem o nome Purim, “as sortes”.

Quando Mordechai toma conhecimento, entra em luto público. Ester percebe que algo grave aconteceu e recebe a mensagem decisiva do seu primo: se ela ficar calada, a salvação pode vir por outro caminho, mas ela e a sua casa não ficarão de fora da responsabilidade. E vem a frase que atravessa gerações, como uma pergunta lançada ao coração: “Quem sabe se não foi para um momento como este que chegaste a rainha?”

A coragem de Ester e o jejum

Ester tinha um problema real: aproximar-se do rei sem ser chamada podia significar morte. Mesmo assim, escolhe arriscar. Antes, pede que a comunidade jejue por três dias. É um tempo de recolhimento, de oração e de preparação interior. O objetivo não era só “fazer um pedido ao rei”, mas encontrar força para enfrentar o medo e agir com lucidez.

Passados os dias de jejum, Ester apresenta-se ao rei. Ele recebe-a com favor e pergunta o que deseja. Ester não revela tudo de imediato. Convida o rei e Haman para um banquete e, depois, para um segundo banquete. Aos poucos, ela cria o momento certo: aquele em que a verdade vai cair com peso e o rei não vai conseguir ignorá-la.

A reviravolta: o caçador cai na própria armadilha

Entre os dois banquetes, acontece algo que parece “coincidência”, mas que, na leitura judaica, tem sabor de providência: numa noite, o rei não consegue dormir e manda ler os registos do reino. Descobre então que Mordechai lhe salvou a vida e nunca foi recompensado. O rei pergunta a Haman como se deve honrar alguém a quem o rei quer distinguir. Haman, achando que é ele o homenageado, descreve uma honra pública grandiosa. E o rei manda que seja feita… a Mordechai.

De repente, Haman, que planeava humilhar e matar Mordechai, vê-se obrigado a conduzi-lo em honra pelas ruas. É um golpe enorme no orgulho dele. E é só o começo.

No segundo banquete, Ester finalmente fala. Diz ao rei que ela e o seu povo estão marcados para morrer. O rei fica chocado e pergunta quem fez tal coisa. Ester aponta Haman. A partir daí, tudo desmorona. O plano que parecia perfeito revela-se monstruoso. Haman cai em desgraça e acaba executado na forca que ele próprio tinha preparado para Mordechai. O que era ameaça transforma-se em salvação. O que era luto transforma-se em festa.

Mas o decreto não podia ser anulado

Há um detalhe importante: o decreto real já tinha sido enviado e, no sistema persa, não podia simplesmente “ser apagado”. A solução encontrada foi emitir um novo decreto, autorizando os judeus a organizarem-se e defenderem-se. No dia marcado, eles resistem, derrotam os atacantes e sobrevivem.

Purim celebra exactamente isso: a sobrevivência quando tudo parecia perdido, e a inversão completa do destino. É por isso que, apesar de ser uma história dura, o resultado é vivido com alegria. Não é uma alegria ingénua, é uma alegria que vem depois do medo.

Como se celebra Purim

Além de recordar a história, Purim tem práticas muito próprias, que dão forma à festa:

  • A leitura da Meguilá de Ester à noite e no dia seguinte, em comunidade.
  • O envio de alimentos a amigos (mishloach manot), como gesto de união e cuidado.
  • As ofertas aos necessitados (matanot la’evyonim), reforçando a dimensão de solidariedade.
  • Uma refeição festiva (seudat Purim), com alegria à mesa.
  • Na véspera, existe o Jejum de Ester, lembrando os dias em que o povo se uniu em jejum e oração antes da intervenção de Ester.

E há também símbolos populares: as matracas e o barulho quando se diz o nome de Haman, como forma de “apagar” a memória do mal, e os doces típicos (como os hamentashen, muitas vezes associados ao “chapéu” ou “orelhas” de Haman).

Um detalhe curioso que dá que pensar

O Livro de Ester tem uma particularidade famosa: não menciona explicitamente o nome de Deus. A narrativa parece andar por decisões humanas, acasos, encontros e “coincidências”. E, no entanto, a leitura tradicional insiste: nada ali é acaso. É como se a mensagem fosse esta: mesmo quando não vemos Deus de forma óbvia, mesmo quando tudo parece apenas política, medo e sobrevivência, a história pode ser conduzida por caminhos discretos.

Porque é que Purim continua atual

Purim não é só “uma história antiga”. É uma lembrança de que o perigo pode crescer em silêncio, de que a coragem às vezes começa com um passo interno, e de que uma pessoa, colocada no lugar certo, pode fazer diferença para muitos.

E, talvez por isso, Purim é vivido com tanta alegria: porque diz, sem romantizar a dor, que há momentos em que a vida vira do avesso, e o que parecia sentença pode tornar-se caminho.


O livro de Esther

O livro está dividido em 10 capítulos:

Capítulo 1: O rei Achashverosh da Pérsia realiza duas festas gigantes, e ele tem sua esposa, Vashti, executada.

Capítulo 2: A busca de uma nova rainha resulta em Esther (prima do sábio da Torá Mordechai) sendo levada ao palácio, mas não compartilhando sua identidade judaica. Juntos, eles salvam o rei de dois conselheiros do palácio.

Capítulo 3: Haman, o perverso conselheiro, convence o rei a executar todos os judeus em seu em um dia: 13 de Adar.

Capítulo 4: Mordechai previne Esther para interceder diante do rei.

Capítulo 5: Esther convida o rei e Haman para uma festa privada, na qual ela convida ambos para uma segunda festa. Haman decide erguer uma forca para pendurar Mordechai, que se recusa a curvar-se para ele.

Capítulo 6: O rei não consegue dormir e naquela noite é lembrado que ele nunca recompensou Mordechai por ter salvado a sua vida. Ele pede para Haman para vestir do rei em Mordechai, montá-lo no cavalo real e conduzí-lo pelas ruas da cidade.

Capítulo 7: No segundo banquete festivo, Esther fala ao rei que Haman deseja exterminar o seu povo. Enfurecido, o rei manda enforcar Haman na forca que ele havia preparado para Mordechai.

Capítulo 8: Ordens são emitidas em nome do rei, autorizando os judeus a se defenderem e a matar aqueles que desejam exterminá-los.

Capítulo 9: Os judeus se defendem em Adar 13 e descansam em Adar 14. Na capital de Shushan, é necessário um dia extra, e o resto está atrasado para Adar 15. Esther tem os eventos registrados e os pergaminhos são enviados para judeus por toda parte. (No ponto da história que descreve como os 10 filhos de Haman foram mortos e enforcados, as palavras na meguilá são escritas em uma coluna, usando um formato visto em apenas alguns lugares na escritura).

Capítulo 10: Os acontecimentos estão incluídos nos registros da Persia e Mordechai torna-se um vice-rei muito popular.

Quando se comemora?

Começa ao pôr do sol de  Segunda-feira, 2 Março, 2026
Termina ao anoitecer de  Terça-feira, 3 Março, 2026

Para saber mais sobre >Purim, clique aqui: Alguns Porquês de Purim

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