Há lugares que nos marcam logo à primeira visita. Não apenas pelo que vemos, mas pelo que sentimos. O Sanatório de Valongo, também conhecido como Sanatório de Mont’Alto ou Monte Alto, é um desses lugares. Um espaço imenso, carregado de história, envolto em mistério e, ao mesmo tempo, surpreendentemente belo.
Estive lá recentemente. Hoje, o antigo sanatório tornou-se um ponto turístico informal, muito visitado. Vê-se de tudo: curiosos, fotógrafos, exploradores urbanos, jovens, adultos e até famílias com crianças. Apesar do estado de abandono, é um local que continua a atrair pessoas, talvez pela sua aura enigmática, talvez pela imponência do edifício, ou talvez pela vista absolutamente extraordinária que oferece.
É, sem dúvida, um lugar para voltar.
A origem: quando a tuberculose moldava a paisagem da saúde
No início do século XX, muito antes de pensarmos em pandemias como a Covid-19, a tuberculose era uma das doenças mais mortais em Portugal e na Europa. Altamente contagiosa e com tratamentos muito limitados, levou à criação de sanatórios isolados, geralmente em zonas elevadas e rodeadas de natureza, onde se acreditava que o ar puro ajudaria na recuperação dos doentes.
O Sanatório de Valongo nasceu neste contexto. A sua construção começou nos anos 30, sob a responsabilidade do arquiteto José Júlio de Brito, seguidor de Marques da Silva e também autor de edifícios emblemáticos como o Teatro Rivoli, no Porto. No entanto, a obra arrastou-se durante décadas e só ficou concluída em 1958, quando os avanços médicos já começavam a tornar este tipo de instituições menos essenciais.
Um gigante na Serra de Santa Justa
Mesmo em ruínas, o Sanatório de Valongo impressiona. Inserido numa área de cerca de 88 mil metros quadrados, o equivalente a nove campos de futebol, o complexo original incluía:
- um edifício principal com cinco pisos e um recuado
- dezenas (e depois centenas) de camas para internamento
- uma escola
- lavandaria
- reservatório de água
- igreja com acesso interior direto
- uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Enfermos, hoje em avançado estado de degradação, situada a alguns metros do edifício principal
Durante a minha visita não cheguei a fotografar a capela, mas é um elemento que reforça a dimensão quase “autossuficiente” deste espaço, pensado para acolher doentes durante longos períodos, afastados do mundo exterior.
Mais doentes do que camas, mais histórias do que certezas
O sanatório abriu com uma lotação inicial de cerca de 50 camas, mas rapidamente passou a acolher mais de 300 doentes em simultâneo. As condições nem sempre eram as melhores e os tratamentos disponíveis eram limitados. Muitos pacientes não sobreviveram. Alguns profissionais de saúde também terão sido contagiados e morreram.
Estas circunstâncias ajudaram a construir, ao longo dos anos, uma narrativa pesada em torno do local. Fala-se de sofrimento, de mortes em condições difíceis e de espaços como a antiga morgue, situada no rés do chão, onde alguns visitantes relatam sensações de mal-estar ou “ambiente pesado”. Verdade, sugestão ou imaginação? Difícil dizer.
Do sanatório abandonado ao “dark tourism”
Encerrado em 1975, o edifício foi progressivamente abandonado. Seguiram-se anos de pilhagem, vandalismo e incêndios. Chegou a ser usado para exercícios dos bombeiros e, durante algum tempo, para atividades como paintball. Houve propostas para o transformar numa pousada da juventude, em 1998 e 2001, mas nenhuma avançou.
Com o tempo, o Sanatório de Valongo entrou no universo do chamado dark tourism. Reportagens, vídeos, artigos e até livros, como Histórias de um Portugal Assombrado, de Vanessa Fidalgo, alimentaram a fama do local como “assombrado”. Falam-se de passos, vozes, vultos, rituais satânicos e histórias trágicas. Muitos garantem ouvir ruídos durante a noite.
Durante a minha visita, feita de dia, não vivi nada de paranormal. Mas confesso: o lugar tem uma presença forte. Há um silêncio particular, uma sensação difícil de explicar. Talvez seja apenas o peso da história. Talvez seja algo mais.
Grafitis, ruína e beleza inesperada
Hoje, o cinza do betão mistura-se com grafitis coloridos. A arte urbana ocupa paredes, corredores e antigas enfermarias, criando um contraste curioso entre decadência e criatividade. O edifício está muito degradado, é verdade, mas há algo de profundamente fotogénico em cada canto.
E depois há o pôr do sol.
Lá de cima, a vista é simplesmente deslumbrante. A serra, o verde, o horizonte e, ao longe, o mar. Um pôr do sol daqueles que nos faz parar, respirar fundo e esquecer por momentos tudo o resto. As fotografias ficam fenomenais, mas nenhuma imagem consegue captar totalmente o que se sente naquele instante.
Um lugar para voltar
O Sanatório de Valongo é contraditório. Assustador para uns, encantador para outros. Um espaço de sofrimento no passado, mas também de contemplação no presente. Um edifício em ruínas que continua vivo na memória coletiva e na curiosidade de quem o visita.
É enorme, misterioso, carregado de histórias e, ao mesmo tempo, surpreendentemente belo. Um lugar que pede tempo, respeito e silêncio. Um lugar que merece ser observado com cuidado.
Quero voltar. Talvez para explorar melhor.
Talvez para ver o pôr do sol outra vez.
Ou talvez apenas para confirmar aquilo que já senti: que há espaços onde a história não desaparece, mesmo quando os edifícios caem.
Fica aqui o registo fotográfico.



































Arquivo Histórico Municipal de Valongo
Tratamento da imagem: Porto Desaparecido
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