Durante décadas, a Somalilândia viveu numa espécie de limbo político. Existe, funciona, governa-se a si própria, mas para a maioria do mundo “não existe”. Nos últimos tempos, porém, o nome começou a surgir com mais frequência nos noticiários, sobretudo após o reconhecimento por parte de Israel, trazendo este território africano para o centro do debate internacional.
Mas afinal, o que é a Somalilândia?
A Somalilândia situa-se no Chifre da África, na mesma região onde hoje se encontra a Somália. Foi colónia britânica até 1960 e, após uma breve independência, uniu-se à antiga Somália italiana. Essa união revelou-se desastrosa. A partir dos anos 80, o regime de Mogadíscio reprimiu violentamente a população do norte, deixando marcas profundas.
Em 1991, com o colapso do Estado somali, a Somalilândia declarou unilateralmente a sua independência. Desde então, seguiu um caminho muito diferente do resto do país: criou instituições próprias, realizou eleições, manteve estabilidade interna e evitou o caos prolongado que marcou grande parte da Somália.
Apesar disso, nunca foi oficialmente reconhecida pela comunidade internacional. Para a ONU e para a maioria dos Estados, continua a ser apenas uma “região autónoma”.
Um Estado que funciona
Aqui reside a grande contradição. A Somalilândia tem governo, parlamento, forças de segurança, moeda, sistema judicial e uma capital funcional, Hargeisa. Controla o seu território e mantém relações informais com vários países. Na prática, age como um Estado. No papel, não o é.
Este paradoxo levou muitos analistas a falar de hipocrisia internacional: exige-se estabilidade, democracia e instituições sólidas em África, mas quando estas surgem fora dos enquadramentos políticos tradicionais, são ignoradas.
Porque é que Israel entra nesta equação?
O recente reconhecimento por parte de Israel trouxe nova atenção ao tema. Não se trata apenas de um gesto simbólico. A Somalilândia ocupa uma posição estratégica junto ao Mar Vermelho e ao Golfo de Áden, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. Para Israel, como para outros países, esta localização tem peso geopolítico e de segurança.
Além disso, o reconhecimento quebra um silêncio de décadas e levanta uma questão incómoda: se a Somalilândia cumpre, há mais de 30 anos, os critérios básicos de um Estado funcional, por que razão continua a ser ignorada?
A Somalilândia existe
O debate não é apenas africano. É também moral e político. Reconhecer ou não a Somalilândia implica repensar fronteiras herdadas do colonialismo, interesses regionais e equilíbrios diplomáticos. Mas ignorar a sua existência não a faz desaparecer.
Como bem sublinham vários analistas, a Somalilândia não é um projeto imaginário nem uma fantasia separatista recente. É uma realidade vivida diariamente por milhões de pessoas que se identificam como cidadãs de um país que funciona, mesmo sem selo internacional.
Talvez o reconhecimento de Israel não mude tudo de imediato. Mas abriu uma brecha num consenso confortável. E, pela primeira vez em muito tempo, obrigou o mundo a olhar para um território que sempre esteve lá.
A Somalilândia existe. A pergunta que fica é: até quando o mundo vai fingir que não?

Um homem deposita seu voto em Hargeisa, em frente ao emblema nacional da Somalilândia, em uma seção eleitoral durante as eleições presidenciais de 2024

Hargeisa é a capital e a cidade mais populosa da Somalilândia

Foto: Farhan Aleli/AFP/Getty Images: Reconhecimento por Israel gerou celebrações nas ruas da Somalilândia



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