
Miragaia, uma freguesia do Porto repleta de história, é um lugar que me atrai cada vez mais. As suas ruas e casas contam histórias que ecoam através do tempo. Cada visita é uma descoberta, revelando novos encantos e detalhes fascinantes. Miragaia é uma fusão perfeita entre passado e presente, um lugar onde me sinto bem.
A judiaria
A antiga judiaria é um dos pontos mais fascinantes de Miragaia. Acho que até consigo imaginar a vida vibrante e culturalmente rica que ali existia. Cada pedra, cada casa, conta a história de uma comunidade que deixou a sua marca.
Esta judiaria abrange a área da Calçada das Virtudes até ao antigo Convento de Monchique, Rua da Bandeirinha e Largo do Viriato. Acredita-se que a criação da Judiaria de Monchique no século XIII tenha sido motivada pelas políticas de segregação e restrição enfrentadas pelos judeus em Portugal na época. É possível que os judeus tenham optado por mudar para lá devido à proibição de alugar ou vender propriedades na Cividade, onde se localizava a Judiaria Velha. Estas restrições eram comuns naquele tempo e frequentemente obrigavam os judeus a estabelecerem-se em áreas periféricas e menos valorizadas das cidades.
Em Miragaia, ainda existem vários nomes de lugares que remetem à presença judaica: Monte dos Judeus, Escadas do Monte dos Judeus, pátio do Monte dos judeus.
Por volta de 1380, o rabino-mor do rei D. Fernando, Don Yahuda Ben Maner, estabeleceu a terceira sinagoga do Porto na Judiaria de Monchique (aqui em Miragaia, onde era o Convento de Monchique)…agora parte abandonado e parte é o Hotel Neya. Esta sinagoga, conhecida como a Sinagoga Grande de Monchique, foi uma das mais importantes de Portugal na época. Um documento, uma “inscrição de inauguração”, foi encontrado na parede ocidental da capela do convento e está atualmente no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa.
Pode ler-se:
“Alguém poderá dizer: Como nom foi resguardada umha casa de tanta nomeada no interior dumha muralha? (…) O maior entre os Judeus, o mais forte dos heróis, e que se levantam os chefes ali está ele de pé. (…) Ele é o Rabi Don Yehudah ben Maner, luz de Judá e a ele compete autoridade”.
Para além dos nomes das ruas que ainda perduram, da pedra com a inscrição em hebraico, temos os documentos do Cabido de 1380 referentes à cobrança por terrenos a algumas famílias judaicas.
Também um documento de 1410 refere que foi dada autorização a Gil Vaz da Cunha para construir umas moradas no pequeno monte em que tinham habitado os Judeus e onde existia uma Sinagoga abandonada.
Subindo as Escadas do Monte dos Judeus podemos ver uma fonte, do séc. XIX, trasladada do antigo Mercado do Peixe, onde é hoje o Palácio da Justiça.
Os jardins sustentáveis são maravilhosos. Repletos de restos de lagares de azeite ou quem sabe cereais…Este é dos locais mais lindos do Porto para mim.
O projeto das escadas do monte dos judeus (escadas rolantes)
Aspirando a conectar a zona alta da cidade do Porto, onde o tráfego está há muito enraizado, o projeto arquitetónico das escadas do Monte dos Judeus era algo ambicioso. Esta empreitada, concebida pelos Depa Architects em colaboração com os Pablo Pita Architects, teve origem num concurso lançado pela Câmara do Porto em 2017, visando a implementação de um sistema de percursos pedonais automatizados.
Um dos objetivos fulcrais da intervenção era garantir uma transição suave, em vez de uma rutura abrupta. As escadas rolantes, estruturadas em torno de um imponente muro de pedra que divide a nova estrutura em três secções não alinhadas, foram construídas com “betão bujardado”.
Depa Architects empenhou-se em integrar os elementos na paisagem do centro histórico, procurando uma harmonização natural. As escadas fundem-se de forma orgânica com a identidade da cidade, combinando elementos antigos com inovações contemporâneas, distribuindo-se e adaptando-se ao longo do percurso, assemelhando-se, nas palavras do arquiteto, a “peças de um quebra-cabeças” que se encaixam harmoniosamente.
Notou-se uma mudança de perceção dos habitantes de Miragaia, que inicialmente resistiram à obra, mas agora reconhecem a utilidade das escadas, não apenas para os locais que percorrem o trajeto do rio até ao topo da cidade e vice-versa, mas também para os turistas que são atraídos para o local.
Em Miragaia, as escadas rolantes estão em funcionamento desde 2020, num local de “significado histórico consolidado”.
Assim, Miragaia não é apenas uma visão de beleza, mas um testemunho vivo de uma história rica, onde cada pedra parece sussurrar sobre a conexão especial entre este lugar encantador e a vibrante comunidade judaica que moldou a sua identidade na Idade Média.















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